Escrever agora para revisar daqui a uma década

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(Ok. Uma década foi um exagero. Mas é mais ou menos assim que as coisas funcionam.)

O negócio é o seguinte: todo escritor precisa revisar o seu livro antes de simplesmente publicá-lo. Não apenas revisão ortográfica/gramatical para corrigir os “com a” que estão escritos “coma”, colocar acentos, ajeitar aquela vírgula; mas fazer a revisão da história. Ver o que pode ser melhorado, o que seria legal ser alterado, o que seria melhor se for retirado. Revisar a história no intuito de melhorá-la. O problema é que você não pode simplesmente parar tudo o que está fazendo e revisar quando você acabou de terminar de escrevê-lo.

Revisar um livro logo que se terminou de escrevê-lo, é como tentar rechear um cupcake após ter tirado ele do forno: a massa ainda está quente, está molenga, você vai cortar e ela vai se desfazer e vai dar em uma bela merda. Sendo que qualquer recheio que você colocar lá não vai durar cinco segundos, porque de tão quente que a massa está, ele vai se perder todinho.

Mas não é hora de falar de culinária, é apenas uma metáfora que reflete no ato de revisar um livro logo após terminar de escrevê-lo.

A questão é que, neste caso, o livro acabou de sair do forno. Ele ainda está quentinho. As ideias estão quentes na sua cabeça, assim como a história completa. Você acabou de digitar umas dezenas de palavras sem parar, está fatigado por escrever tanto, ao mesmo tempo em que está exultante por finalmente ter terminado esse diabo de livro que estava te consumindo há não sei lá quanto tempo, e que muitas vezes, para muitos autores, é o primeiro livro que finalizam de verdade. Sem parar para escrever outros, sem deixá-lo de lado; simplesmente finalizam de vez. E, por causa disso, você não pode revisá-lo.

Por que eu não posso? O livro é meu, faço o que eu quiser, quando quiser. Você não é a minha mãe!

Graças a Deus que eu não sou. Mas eis os motivos dos quais você não deve fazer nada agora que finalizou seu livro:

Os erros de escrita vão passar muito mais facilmente. Você escreveu pra caralho, releu trechos várias vezes, reescreveu — provavelmente — várias vezes também até conseguir deixar aquela parte da história de um jeito que te agrade. Então, meu caro, a sua leitura — ou releitura — da história, logo após ter terminado de escrever, será cansativa. Você está manjado do estilo da sua narrativa, você sabe o que vai acontecer, e inconscientemente você vai fazer uma leitura dinâmica. Todos os errinhos idiotas de português que você cometeu, e que se daria uns tapas se tivesse visto que escreveu aquilo, vão passar batidos. Você pode pegar um ou outro, mas os piores mesmo você possivelmente não vai enxergar.

Você dificilmente vai encontrar alguns furos básicos da história. A história ainda está fresca na sua cabeça. Você não está enxergando ela pedaço por pedaço, você está enxergando ela como um todo. Você não está analisando o fato X, Y e Z, separadamente, que foram mostrados, você está vendo o A à Z completo. Para procurar e encontrar possíveis furos da sua história, você precisa analisar conflito por conflito, história por história contada, capítulo por capítulo. Às vezes você escreveu algo no capítulo 3 que não faz sentido algum com o que você escreveu no capítulo 20, e que não tem nada a ver com desenvolvimento de personagem ou de história; simplesmente é algo que não bate, que não tem explicação e que você nem sequer percebeu ou parou para analisar.

Para você, vai estar maravilhoso. Todo pai e mãe acham seus filhos lindos e maravilhosos, por mais feios que eles sejam, e não seria diferente com um autor que recém terminou de escrever seu livro. Você se acha o maioral, está com aquela plaquinha de orgulho colada na testa e vai até se presentear com algumas brejas caras do supermercado para comemorar o final do livro. E este é o momento decisivo, as vinte e quatro horas cruciais de vida ou morte da sua história: se alguém elogiar, você vai se sentir ótimo; mas se alguém apontar falhas, falhas inclusive que você não percebeu, e a pessoa ainda fizer uma crítica feia, você vai se sentir terrível, pior escritor, vai achar seu livro uma merda e vai mandar tudo à merda e começar a vender miçanga na praia. Aproveite essas vinte e quatro horas de vida do seu livro terminado, ache-o maravilhoso. Mas é como diz Anne Enright: Apenas escritores ruins pensam que seu trabalho é muito bom.

Então, o que eu devo fazer para sair dessa?

Espere. Como dizem aqueles conselhos terríveis feitos especialmente para gente que está sofrendo com um final de relacionamento, o tempo é seu melhor amigo. Espere. Dê um tempo. Respire. Vá tomar uma cerveja, assistir um filme no cinema; finja por uns dias que seu livro não está lá no seu computador, te esperando para ser revisado. Faça como aquele seu casinho ruim: que sai para beber sem te avisar, desliga o telefone e te ignora pelo resto da semana. Então, depois, e só depois de respirar bastante e clarear as ideias, tirar toda a história da cabeça e estar bem relaxado e descansado, sente na frente do seu computador e comece a revisar. A dica é: espere pelo menos duas semanas antes de começar a revisar.

Tenha leitores betas, ou uma visão de fora da sua história. Como diz Margaret Atwood: “você nunca pode ler seu próprio livro com a ansiedade inocente que vem com a primeira página de um novo livro, porque você escreveu aquilo. Você esteve nos bastidores. Então peça a um amigo ou dois que deem uma lida antes de enviar a alguma editora. Justamente por você estar acostumado e manjado da história, peça para um amigo que lê ou escreve também ler para você. As chances de ele encontrar furos na sua história — por mais bobinhos que sejam — são enormes. Afinal, essa história é nova para eles. Eles não conhecem o seu personagem, ou o passado dele, não sabem o que os espera no final. Eles não estão familiarizados com nada. Eles podem ser mais úteis revisando sua história do que você.

Deixe a ideia amadurecer. Se você escreve mais por hobby, ou pretende colocar outras histórias em uma fila de publicação e deixar esta por último, por não achar que ela está boa o suficiente ainda, apenas termine de escrever e espere. Diferente da primeira dica, esta é para você ficar de olho na sua história, pensar em todos os ângulos possíveis, em todas as possibilidades e depois trabalhar nela novamente quando ela estiver amadurecida. Hoje o seu livro pode estar legal, mas amanhã, com uns ajustes e novas ideias, ele pode ficar espetacular. Não vá escrevendo e já com sede de publicar a história, de mostrá-la ao mundo, principalmente se ainda está incerto sobre alguns pontos. Tenha calma. A pressa é sua maior inimiga. O sucesso também não vai pintar de uma hora para outra (ao menos, é claro, que você sei lá, participe do BBB ou solte nudes por aí).

E aí, o que achou? Espero que este post tenha sido útil!

Boa escrita para você!

Bio Gabs

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Um comentário sobre “Escrever agora para revisar daqui a uma década

  1. Boas dicas, também concordo que ao terminar um livro não há paciência para revisar como deveria, porque eu não tenho, tô meio aturdido e dando graças a Deus por ter terminado o livro, mal acreditando, e, ao reler, acho pontos errôneos mas nem tanto como em uma revisão uns seis meses depois.

    Seis meses: parece muito tempo, não? É algo parecido que Stephen King faz.

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