Escreve que passa: o significado das minhas tattoos (para mim)

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Acho que eu sou uma das poucas pessoas no mundo que só conseguem aceitar fazer uma tatuagem se ela tem algum grande significado para a pessoa. Algumas fazem porque “é bonita”, “é foda”, “tem um desenho irado”, ou porque realça alguma parte do corpo, ou que deseja cobrir uma cicatriz. Eu até sempre quis fazer uma tatuagem nessa vibe uma vez: uma fênix que cruzava minhas costas, é clássico. Mas eu vi que no fundo ela não tinha significado nenhum para mim. Então, broxei e guardei o dinheiro para gastar com uma coisa melhorzinha para mim.

Atualmente eu tenho cinco tatuagens, mas é claro que esse número vai crescer com o tempo, conforme minhas experiências vão se acumulando e momentos marcantes também — porque é exatamente isso o que minhas tatuagens representam para mim: momentos marcantes, experiências, algo que eu gostaria de me lembrar para sempre, porque sabemos que a memória é a coisa mais complicada de se lidar. Um dia a gente perde as memórias, as lembranças, seja pela eventualidade do passar dos dias ou por doenças como Alzheimer ou acidentes que afetem parte do nosso cérebro; e tem coisas que eu não quero esquecer. E para isso, eu resolvi marcar na pele.

Não sei porque resolvi fazer esse post agora, mas surgiu uma grande necessidade de falar sobre elas. Então, bora lá.

1O coração de Kingdom Hearts
Pulso/2012

Essa tatuagem é importante para mim por diversos motivos. Um deles, é que foi minha primeira tatuagem, obviamente — e meu primeiro ato de rebeldia ao completar 18 anos, pois foi feita um mês depois do meu aniversário de 18 anos. Muitos adolescentes passam os anos dizendo “porque quando eu tiver 18 anos eu vou fazer a porra que eu quiser”, e no fim não fazem merda nenhuma. Bom, eu não fiz tudo o que eu quis, mas fiz essa tatuagem e posso dizer que fiquei consideravelmente contente. Ela também traz o significado de ser o símbolo de um jogo que eu amo muito, que é o Kingdom Hearts. Eu adoro esse jogo e ele tem uma história muito legal, bonita e tudo mais. Mas, não apenas isso, ela também significa que eu finalmente cheguei aos 18 anos.

Nossa Pandora, mas que bizarro, por que comemorar isso? Bom, migas, por vários motivos. Inclusive o de poder beber em bar sem ter que mentir a idade. Mas é que eu sou uma pessoinha muito difícil. Eu tenho uma alimentação de merda, que acaba virando uma saúde de merda e em uma vida de merda e de pouca expectativa, sem falar no meu pensamento/mantra de “vivendo louco morrendo cedo”. Eu pensei durante boa parte da minha adolescência que dificilmente chegaria aos 18 anos inteira, e fiquei bem surpresa ao ver que, sim, cheguei. E a cada ano eu comemoro a vitória. Continuo na alimentação de merda, mas aos pouquinhos eu estou me ajeitando.

3“Há muitos mundos, mas eles compartilham o mesmo céu – um céu, um destino”
Antebraço/2013

Meu pai odeia tatuagens. Ele odeia gente tatuada. Ele odeia qualquer coisa relacionada a tatuagem. Mas é claro que a vida eventualmente ia virar isso contra ele e deixá-lo ter uma filha tatuada e que ama tatuagens, não é mesmo? Óbvio que sim. O ponto dessa introdução é que eu me lembrei agorinha, que quando ele soube que eu fiz essa tatuagem, ele pirou — ele já tinha pirado com a primeira, mas nem tanto em comparação a esta porque a primeira ainda era minúscula —, choramingou e disse que estava decepcionado comigo. Tivemos a eventual discussão sobre “meu corpo minha vida”, “eu gosto”, “é importante para mim” e acabou com ele simplesmente se conformando de que não poderia tirá-la de mim. E um dia, enquanto eu estava colocando o plástico nela para ir trabalhar, ele me ajudou a fechar o plástico no braço. Eu pensei que meu braço ia apodrecer e cair naquela mesma hora, mas cá estou digitando com as duas mãos.

O significado dessa tatuagem… Bom. Vamos começar do começo. Todo mundo já teve uma pessoa muito importante, não teve? Alguém que mudou a nossa vida, que fez ela parecer melhor, alguém que nos incentivou a correr atrás dos nossos sonhos, que sempre acreditou em nós… Alguém que nos amou como nunca nos amamos. Na vida de toda pessoa, ou pelo menos quase todas, é possível que exista alguém assim. Na minha também existiu.

Eu tive essa pessoa, que era um dos meus melhores amigos e que foi a razão de eu ter deixado de fazer muitas cagadas na minha adolescência. Ele foi a pessoa mais importante pra mim depois da minha família, era meu porto seguro, a melhor pessoa que eu já havia conhecido em toda a minha vida. Ele era meu melhor amigo, meu irmão de vida, minha alma gêmea, meu maior amor; a única pessoa na qual eu realmente pensei: sempre foi a gente; não importa como, não importa quando, mas a vida uniu a gente e sempre foi e sempre vai ser a gente e nada vai mudar isso. Ele era tudo para mim. Tudo. Tudo.  E aí ele morreu.

Não. Ele não morreu em um acidente, não teve câncer, não morreu em nenhuma tragédia. Ele morreu porque ele quis — literalmente. Esse meu melhor amigo cometeu suicídio em 2011. E desde então eu nunca mais fui a mesma, mas porque eu vivi por muito tempo em um luto constante por ele.

Um dos grandes desejos dele era fazer várias tatuagens de coisas que ele gostava, mas ele nunca se decidia o desenho, nem onde, e no fim ele se foi e sequer fez um símbolo do infinito no pulso.

Essa tatuagem foi tanto em homenagem a ele (que também adorava Kingdom Hearts, pois essa frase também é do jogo), por nunca ter feito uma tatuagem, quanto tendo um significado para mim. O significado que ela tem para mim é de um marco de dois anos que ele se foi, e que foram os dois anos mais difíceis da minha vida, porque eu tive que reaprender a viver em um mundo sem esse meu melhor amigo. Na tentativa de ajudar, algumas pessoas diziam “mas você passou X anos sem ele, consegue viver sem daqui para frente”, mas elas sabem que estão redondamente enganadas. A gente pode até viver vários anos sem alguém, mas a partir do momento em que conhecemos a pessoa e a perdemos, nunca será a mesma coisa. Ninguém que é realmente importante para gente simplesmente entra na nossa vida, faz uma bagunça, vai embora e a gente deixa por isso mesmo. A gente sofre, a gente sente falta, a gente pede pra bagunçar de novo. Algumas vezes a pessoa vem e bagunça de novo, mas outras vezes não.

1“Alguns infinitos são maiores que outros”
Antebraço/2013

Tive essa fase — que ainda não passou — em que eu era/sou muito fã de The Fault In Our Stars, do John Green. Eu li o livro, me apaixonei pela história, chorei por semanas e quase morri assistindo o filme; e claro, quase matei meu pai do coração novamente quando ele viu essa tatuagem, fiz ele bater com a mão na mesa mais algumas vezes e reclamar sobre como a vida era injusta com ele. Mas, além do significado maravilhoso — referindo-me à tradução — que essa tatuagem tem, ela é apenas uma continuação da história da outra tatuagem.

Durante a leitura do livro, eu entendi que cada pessoa tem o seu infinito; que a vida de cada pessoa é um infinito, assim como os bons momentos. Eu notei que a minha relação com esse meu melhor amigo era um infinito, porque independente do tempo que passasse, nunca ia acabar. Eu nunca ia parar de pensar nele, de sentir saudade dele, de conhecer pessoas legais e pensar nele, como quem dissesse: “poxa, eu queria que você conhecesse essa pessoa”. E que cada vida é um infinito, porque ela sempre vai existir, apesar de ter sido apagada pela história.

A princípio, além de sofrer constantemente com o falecimento dele, eu o culpei muito por isso. Fiquei extremamente brava, irritada, inconformada. Uma coisa é perdermos alguém para um acidente, uma doença terminal, um acontecimento inesperado; outra coisa é perdermos alguém que quis se perder, alguém que quis morrer. Isso muda tudo. O luto passa de sofrimento e achar que a vida e Deus são injustos com você, a ser movido por pensamentos de que a pessoa era egoísta, que simplesmente resolveu morrer e não pensou no que deixaria para trás. Eu até hoje não sei porque ele se matou, e sei que nunca vou descobrir porque ele nunca deixou pistas da verdadeira razão. Ele levou isso para o túmulo com ele, e me deixou aqui por anos, matutando, questionando e achando ele um babaca, ao mesmo tempo em que eu sentia falta dele.

Até que, um tempo depois de eu ler The Fault In Our Stars, eu percebi que o infinito dele era menor que o meu. Eu percebi, finalmente, que ele quis ir e que não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso. Eu percebi que talvez essa solução tenha sido a melhor para ele, apesar de ele nunca ter conversado comigo sobre o possível problema que ele enfrentava para ele resolver tomar essa decisão. Ele se foi, ele quis ir, e eu não tinha como mudar isso ou arrastá-lo de volta para cá. Ele quis assim. Ponto final.

É como eu disse: eu nunca compreendi a razão de ele ter feito isso. Mas eu aceitei a sua decisão. Eu respeitei essa decisão dele. Eu sei que uma das maiores qualidades — ou até mesmo defeitos — dele, era a de não fazer nada sem pensar uma, duas, três vezes antes de fazer — e para tomar uma decisão tão grande como essa, ele deve ter pensado muitas vezes, pelo menos assim eu imagino. Se ele escolheu isso, era porque era o melhor para ele. E, assim, eu consegui finalmente aceitar e tirar esse peso enorme que ficava no meu coração, querendo culpá-lo pelo meu sofrimento.

Essa tatuagem significa a aceitação e compreensão pela decisão que ele tomou. Eu finalmente o deixei em paz.

2“Eu juro solenemente não fazer nada de bom”
Braço/2014

Posso dizer que nessa tatuagem meu pai não surtou tanto — ele só balançou a cabeça negativamente, fez um comentário, emburrou a cara e voltou a assistir filme —, mas foi a mais sofrida para mim. Não para fazer, mas para lidar com ela depois que eu fiz. Não, ela não ficou horrível, não me arrependi, nem nada. Mas eu a fiz, e pelo último ataque do meu pai com a minha última tatuagem, fiquei receosa em deixá-lo ver, então passei um bom tempo usando camisetas de manga comprida (EM UM CALOR INFERNAL, VAMOS DESTACAR ISSO) para não mostrar a tatuagem. Foi em um maravilhoso final de semana em São Paulo, onde estava suaves 40º, que eu resolvi ligar o foda-se, agora já foi mesmo, e tirar o moletom (!!!!) e deixar ele ver a tatuagem.

Ele viu a tatuagem dois dias depois e teve aquela incrível reação que comentei no começo do parágrafo anterior. Obrigada, pai. Acho que isso é uma boa evolução.

Novamente, essa tatuagem é em homenagem ao meu melhor amigo, que assim como eu também amava Harry Potter. Tínhamos o gosto em comum de amor/admiração pelos Marotos, ele sempre dizia que queria tatuar algo sobre o Mapa do Maroto. Eu sabia que eu queria tatuar algo de Harry Potter, mas nunca havia pensado de verdade no quê. Então, em 2014, eu encontrei o desenho maravilhoso dessa tatuagem na internet e resolvi fazer por dois motivos: por amar Harry Potter, e em homenagem a ele. Um presente de aniversário de 20 anos — a idade que ele nunca vai fazer, e que eu fiz naquele ano.

Acho que perceber isso foi uma das coisas mais dolorosas para mim até hoje, desde que ele se foi. Foi terrível ver como uma coisa que deveria ser impossível de acontecer simplesmente aconteceu. Alguém que deveria ser dois anos mais velho do que eu agora é quase três anos mais novo.

4“Espero que você se apaixone e que isso doa muito”
Panturrilha/2015

Eu sempre fui uma pessoa com uma autoestima extremamente baixa. Totalmente insegura. Nunca confiei no meu taco. Meu melhor amigo me ajudou a melhorar isso por um tempo, mas ele era a minha bateria para que eu mantivesse a minha autoestima e segurança confiantemente carregadas; mas quando eu perdi ele, a bateria se foi, e eu voltei a me sentir aquele monte de merdinha costumeiro. Também tive uma dose de ex-namorados complicados, que não ajudavam em bosta nenhuma e só sabiam me colocar ainda mais para baixo com suas brincadeiras estúpidas sobre a minha aparência, sobre o que eu faço ou deixo de fazer, e principalmente em começar a me trair. Também tive amigas que precisavam me colocar para baixo para se sentirem ótimas e superiores, e eu, já com a autoestima abalada, insegurança gritando, me permitia a isso.

Foi apenas há pouco tempo que eu finalmente conquistei meu amor próprio. Que eu voltei a ter minha autoestima restaurada, minha segurança lá em cima, e uma confiança… Não inabalável, mas consideravelmente boa. Antes, quando eu me olhava no espelho, eu apenas me via como uma pessoa esquisita que PRECISA urgentemente mudar essa nariz para ser aceita. Hoje eu me olho no espelho e vejo meus cachos emoldurando meu rosto; vejo o nariz que ainda quero mudar, mas que não é mais razão para eu me sentir horrível; vejo uma garota bonita. Eu me olho no espelho, com maquiagem ou sem, e apesar de umas espinhas, de cravos, de cara de gripe, de sono, de ressaca, eu me sinto bonita. Se eu estou bem arrumada, então, eu me sinto linda. Não sou gostosa, não sou nível panicat, não sou uma modelo, mas sou linda e sou linda do meu jeito e pretendo ser assim pelo resto da minha vida, sem ninguém ficar ditando regra sobre como devo ser, se devo entrar para sempre em uma 36 ou alisar meu cabelo.

Da mesma forma como percebi que sou linda do meu jeito, que tenho uma forma única de ser, eu percebi que meus relacionamentos anteriores não deram certo porque eu simplesmente não me amava o suficiente, e os caras também não me mereciam. Eu percebi — finalmente percebi — que tenho uma penca de qualidades. Que eu sou boa dentro dos meus parâmetros, seja em fazer algo, seja em qualidade. Eu vi que eu tenho valor, e que eu não posso desperdiçar nem meu valor e nem meu tempo com quem não enxerga isso. E que eu preciso, antes de tudo, me amar e aprender a viver sozinha antes de me permitir amar e querer alguém. Essa tatuagem simboliza a conquista da minha autoestima, amor próprio e valorização própria. Eu poderia dizer restauração, ou reconquista, mas é apenas conquista mesmo. Eu nunca tive esses três, nem isolados e nem em conjunto, antes. Eu descobri o que é isso apenas recentemente. E posso dizer que essa foi a melhor coisa que me aconteceu.

O bom desse post é que ele nunca vai ser muito datado. Vou atualizá-lo com o tempo, conforme meu corpo continue sendo rabiscado com novas tatuagens. Eu tenho alguns desenhos em mãos, mas ainda não conquistei o que eu gostaria para poder marcá-los em mim e servirem de um lembrete na pele, eterno, permanente, do que eu passei, do que me aconteceu, e do que eu superei.

E confesso que quando eu estou naqueles dias de merda, em que a gente simplesmente quer se jogar na cama e chorar e esquecer que o mundo existe, desejando sumir para sempre, eu olho para as tatuagens que tenho e relembro. Relembro de tudo o que eu passei, tudo o que superei, e coloco isso na balança ao lado do que estou enfrentando no momento. E são as memórias das minhas tatuagens que sempre pesam mais, e que me mostram que eu consigo superar essa atual crise, e que eu vou.

Porque eu já passei por coisas piores.

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