Autor-editor: você provavelmente não é um

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Nunca foi tão fácil publicar um livro como é hoje. Hoje, você simplesmente senta a sua bunda na cadeira em frente ao computador, abre um site de publicação online e gratuita e livros, clica em alguns botões e voilá, você foi publicado. Se vai ter sucesso ou não, você já não sabe dizer, mas sua obra já está disponível para ser comercializada na internet e lida por quem quiser, como todo e qualquer outro livro digital.

A autopublicação tem sido o principal método de publicação dos autores nacionais que desistem de correr atrás de editoras que demoram meses para dar um retorno, isso quando dão um; autores que querem ver sua obra amanhã nas livrarias recorrem à sites de autopublicação, buscam gráficas para que seu livro possa ser impresso… Mas poucos se preocupam com o ponto crucial da publicação de um livro: a edição dele.

Não tem coisa que me deixe mais constrangida quando vejo um autor se gabando de que publicou seu livro sozinho, que foi ele quem fez revisão, diagramação, capa, ficha, ISBN e todo o diabo; que converteu seu livro para EPUB em um “programa simples”, que diagramou seu livro de um jeito bem legal e pegou as imagens no Google; e quando eu vou ver o livro do cara… E a edição do livro está uma merda. Eu fico constrangida em pensar que está uma merda. Porque, na verdade, autopublicação era para ser uma coisa linda: era para mostrar a trajetória do autor, a luta dele para fazer com que seu livro pare em uma estante de um leitor, que seja comercializado, lido, visto; não para mostrar que ele foi mão-de-vaca o suficiente para resolver fazer tudo sozinho e o resultado final ficou uma bela e perfeita merda.

É nessas horas que eu digo a mim mesma, como se fosse uma mantra: autor não deve ser seu próprio editor, designer, revisor, nem nada a mais; às vezes, nem seu próprio marketing; nada disso se não tiver formação nisso, se não tiver experiência, conhecimento. Autor, que nunca fez nada do que é necessário para que um livro seja comercializado sem estar em qualidade ruim, deveria se ater à sua única habilidade: em ser autor. Afinal, quase nenhum autor é autor-editor — e quando digo “editor”, eu digo em um termo que englobe todos os serviços editoriais nos quais um livro precisa.

Eu digo isso não por ser “arrogante”, “mesquinha”, ou “hipócrita”, ou qualquer coisa do tipo. Mas eu digo isso por ser verdade. Veja os motivos de porque um autor não deve ser um autor-editor:

Você não deve revisar o seu próprio livro mais do que duas vezes. Também é conhecida como “depois de escrever, espere pelo menos uma semana antes de começar a revisar seu livro”. Essa é a “regrinha” mais manjada de todas, mas é a verdade, e faz um enorme sentido. Você acabou de escrever seu livro. As ideias, a história, tudo está imensamente fresco na sua cabeça, e você provavelmente se sente ansioso em poder enviá-lo para as editoras, ter ele impresso em mãos, encontrar mil avaliações boas dele no Skoob e tudo mais. Você pode até revisar seu livro, ninguém está dizendo o contrário; mas não pode tratar sua revisão como uma “revisão definitiva”. Como você escreveu esse livro, você está acostumado com a narrativa, está familiarizado com a história, então erros simples vão passar completamente despercebidos. Logo, você não estará fazendo uma leitura-revisão “pente fino”, e sim, algo mais dinâmico — porque você já sabe o que vai acontecer depois daquela linha, naquele parágrafo, naquele capítulo. Automaticamente você faz uma leitura dinâmica e muitas vezes não percebe.

Mas eu tenho graduação em Letras, mestrado e doutorado disso e daquilo e faço freela de revisão… Amiga, deixa eu te dar uma novidade: ninguém liga. Não interessa se você é formado, se é palestrante na TED, se trabalha para cinquenta editoras… Independente do que você faça, do que você sabe, revisar o seu próprio livro (no qual você já leu e releu várias vezes, no qual você já sabe da história de cabo a rabo) não é uma boa ideia. Isso dificilmente dá certo e as chances de os leitores encontrarem os erros mais idiotas (idiotas do tipo: ser tão óbvio que nem você acredita que deixou passar ) e se irritarem com isso (afinal, onde estavam todos aqueles diplomas que você disse que tinha na hora de revisar, mesmo?) é gigantesca. E a dica é:

  • Tenha um leitor beta para você ter noção de uma visão de fora do seu livro. Alguns betas, além de lerem e opinarem sobre a história, podem passar um pente fino nos errinhos de português mais bobos e corrigi-los para você. E, quando resolver que “está na hora de publicar”, contrate um bom revisor para passar um pente fino na sua história e corrigir todos (ou pelo menos 99,9%) os erros.

Você não deve fazer sua própria capa, ao menos que tenha experiência com os softwares, noção do que é necessário para montar uma capa, ou formação em produção editorial ou até mesmo design. A explicação para isto é simples e até mesmo óbvia: se você não tem noção disso tudo, então as chances de você fazer uma capa cagada são ENORMES. Justamente por não ter experiência, você provavelmente vai colocar a pior fonte possível no título (e sem legibilidade alguma), não vai ter uma capa harmônica, os textos de contracapa vão praticamente gritar com o leitor, a proporção certamente vai estar errada e a imagem não vai ter qualidade nenhuma para a impressão. Eu não estou exagerando — estou dizendo isso porque já vi exatamente esse caso: a autora que resolveu fazer a própria capa e que no final das contas, o resultado ficou tão feio que aquele constrangimento em admitir que está verdadeiramente uma merda me atingiu como um soco no estômago. O pior de tudo é ver o orgulho de um autor por um trabalho mal feito, mas depois vê-lo se doer porque seu livro não vende, ou porque julgam ele por motivos X, Y e Z.

Migas, o negócio é o seguinte: sua capa PRECISA estar impecável. Ela é o primeiro contato que o leitor tem com o seu livro, e pimenta no rabo de quem diz que o leitor não compra pela capa. A essência do livro pode ser maravilhosa, o autor pode ter uma ótima personalidade, mas se a capa não é bonita, ela provavelmente será a última escolha do leitor em uma livraria — e ele pode simplesmente levar 30 livros e não levar o seu simplesmente porque a capa não é atraente e ele não pagaria trinta reais naquele livro “da capa feia”. Não tem essa de: ah, eu sei usar photoshop, consigo fazer uma capa. Não, miga. Para. A capa pode até ficar legal, mas é muito provável que ela tenha tantos erros que um designer não consiga nem contá-lo nos dedos. E a dica é:

  • Contrate um designer, mais especificamente um capista. Ele tem experiência, sabe o que fazer para criar uma boa capa para o seu livro. Mas contrate um bom. Invista bem o seu dinheiro. Mesmo que custe uma pequena cacetada, não deixe isso de lado. A capa é importante, é o ponto mais importante de um livro, porque ela é a chamada para o leitor conhecer o seu trabalho. Então nada de ficar de mão-de-vaca e querer fazer tudo sozinho. Ao menos abra a mão de querer lidar com isso sozinho e contrate alguém que saiba o que está fazendo.

Você não deve fazer sua própria diagramação. Isso é o que eu mais vejo: aquele livro com a capa linda, super atraente, mas quando abre está em Verdana 10, com espaçamento gigante, margem minúscula e com direito a decoração nos cantos da página e numeração na parte interna das páginas de um jeito que quase não dá de ver. E o autor ainda acha maravilhoso por causa das ilustrações que tem nos cantinhos pra decorar.

Migas, é o seguinte: se o texto não estiver legível, se a leitura não for confortável, o leitor não vai gostar de ler. Se o leitor não gostar de ler, ele simplesmente não vai ler e lá se foi você perdendo um leitor e ainda ganhando um péssimo feedback simplesmente porque a fonte Papirus que você colocou (e achou um máximo! Afinal, caramba, olha só que diferente essa fonte, legal, nunca vi um livro assim!!!!!!) não ficou legal no livro e o leitor não conseguiu ler absolutamente nada. A diagramação é o segundo ponto mais importante, após a capa, pois o texto precisa estar legível, de leitura confortável, para que o leitor consiga ler o livro com fluidez e sem dificuldades. E a dica é:

  • Contrate um diagramador. Ele tem mais experiência que você. Saberá que tipo de fonte, e qual tamanho com entrelinha ele poderá usar para o determinado público-alvo do seu livro, a margem adequada, a mancha gráfica, o projeto gráfico, tudo. Ele saberá deixar seu livro tão bonito por dentro quanto é por fora — e ele saberá disso melhor do que você.

E acredito que seja isto.

Mas você só falou o tempo todo que eu preciso contratar, contratar, contratar! Sim.

Não tem nada que eu possa fazer sozinho? Não. Não, se você não tiver experiência e souber exatamente o que está fazendo.

É como se você fosse processado, e você quisesse ser seu próprio advogado. Miga, não dá certo.

Eu entendo que ter seu primeiro livro é como um filho: não importa o quanto ele esteja feio, o quão ruim ele seja, você continuará achando ele lindo e amando ele. Afinal, é criação sua, oras bolas; até parece que você vai achar algo que saiu de você ruim desse jeito, não é mesmo?

Mas é nessas horas que você precisa abrir os olhos, o coração e a cabeça e pensar nisso: o seu livro está realmente bom o suficiente para ser publicado? Não em questão da história, mas em questão editorial. A revisão dele está legal? Ele foi editado bem? A diagramação está boa, a capa está atraente? Se você tiver dúvidas, pergunte para quem entende. Questione seus amigos mais próximos — ou os mais sinceros — e pergunte. E, mesmo assim, se ainda quiser fazer tudo sozinho… Saiba que está por sua conta e risco. E o único culpado pelo seu livro não estar vendendo ou tendo o sucesso esperado, é você.

  Bio Gabs

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3 comentários sobre “Autor-editor: você provavelmente não é um

  1. Perfeito! É por aí mesmo.

    Aqui em casa trabalhamos em equipe – eu e esposa, revisamos os livros um do outro (os digitais, porque os meus de papel é a editora quem revisa e faz tudo).

    O primeiro livro (ainda só digital) da esposa saiu com capa de um designer que, aliás, arrebentou, e tem recebido muitos elogios. Ele já está contratado e já está trabalhando na capa do novo livro dela. Aliás, fui beta reader desse livro e dei uma reprovada em alguns pontos. Resultado, ela está revendo todo o livro. Eu sou impiedoso com ela, ela comigo. Ser impiedoso é fundamental.

    Agora, cuidado! Não é porque seu livro foi revisado, diagramado e com capa de designer, todos contratados por uma editora que depois ainda fez seu marketing que você vai ficar livre de ver seu trabalho virar uma merda. Aconteceu comigo! Dois dois meus livros foram bagunçados por uma editora carioca, que fez uma merdança fenomenal e, ainda por cima, me deu um cano.

    Anos depois, o tal selo fechou e os direitos votaram para mim. Fiz uma nova revisão, paguei um designer para fazer a nova capa, diagramei o danado (em um programa profissional) seguindo cursos, regras, e etc e, em dois anos, já vendi dezenas de vezes mais do que a versão de papel publicada por editora e preparada por, hã… profissionais. Boas resenhas são grande maioria (sempre tem o público errado que te detona, mas faz parte) e segue em frente entre os mais vendidos, de vez em quando.

    Então, sim, querer fazer tudo é dar tiro no pé. Mas ficar 100% nas mãos de algumas editoras tampouco é seguro. Se tiver a sorte de conseguir ser publicado por uma editora com boa tradição, é ficar de olho nas revisões e reclamar, sim, se vir algo ruim. Afinal, um dos meus livros foi para a gráfica com o arquivo errado, repleto de marcações e comentários da revisora. Depois o autor é que é maluco.

    Fui.

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  2. Nunca amei tanto uma matéria como essa. Estou vivendo dois extremos, o de autora e o de resenhista. E vendo alguns erros e o impulso de alguns escritores, tem um ano que meu livro está finalizado e até hoje não consigo (por não sentir segura) de ir adiante. Nesse momento meu livro passa pela segunda correção (não da minha parte). E me choco com escritores que lançam o livro por conta própria.

    Parabéns, você foi bem explicativa e direta nas informações.

    Beijos
    Paty (leiturasplus.blogspot.com)

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  3. Caramba, sua matéria está perfeita. Eu acho que todo autor em início de carreira deveria calçar a sandália da humildade e ler esse post.

    Parabéns!!!

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