Lidando com a rejeição: ela não é o fim do mundo

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Não. Não, você não pode pagar meia entrada se não é estudante. Não, você não pode passar a mão naquele cachorro. Não, você não pode comer doce antes do almoço. Não, você não vai ter dinheiro para passar as férias da Disney. Não, você não tem dinheiro nem pra comprar uma goiaba e nem para pagar a passagem do buzão. Não, não, não.

Escutamos uma série de “nãos” durante a nossa vida inteira. Para coisas que queremos fazer, para coisas que queremos pedir, para chamar aquela pessoa especial para sair. Pensamos que estamos acostumados com a rejeição; que escutamos tantos “nãos” que parece impossível não saber lidar com isso. Mas tem gente que, por mais que pense assim, sempre dá cinco tipos de ataque, sete ADPs e tem crise de identidade quando recebe o primeiro “não” de uma editora.

Ai, eu vou desistir de ser escritor. Vou largar tudo. A editora que sempre quis não gostou do que enviei; me acha um bosta, na certa. Não quero mais viver disso. Escrita é uma merda. Vou vender minha arte na praia.

Alguns escritores sofrem esse tipo de crise de identidade e não sabem, de maneira alguma, lidar com a rejeição de uma editora — pelo menos da mesma forma que lidam com “não, senhor, a sua pizza não vai chegar antes de uma hora”. Alguns escritores dizem que vão largar tudo, que vão focar no trabalho atual que é o que supostamente valorizam o serviço dele, que não prestam, ficam com a autoestima abalada e alguns até mesmo nunca mais voltam a escrever.

Migas, não é bem assim. Não é só porque você recebeu o seu primeiro “não”, principalmente da sua editora favorita, que necessariamente 1) você é um bosta, 2) sua obra é uma bosta, 3) você não serve para ser escritor e tampouco 4) você deve largar o sonho de ser escritor porque você é um bosta, sua obra é uma bosta e você não serve para isso. A banda toca de uma maneira bem diferente da qual você imagina.

A sua obra pode ter sido rejeitada tanto por não estar boa, quanto por não ser do atual interesse da editora. Existem obras ruins? Existem. Aos montes. Mas em sua maioria, elas podem estar ruins pelo simples fato de o autor ter escrito e já resolvido publicar de primeira, sem ao menos ter um beta reader, alguém que comentasse, um editor que desse uma olhada no texto… Enfim, uma visão de fora e que pudesse opinar, de maneira construtiva, na história sobre o que você poderia melhorar ou não. A sua obra pode ter sido considerada ruim? Possivelmente. Mas você precisa sempre trabalhar muito nela antes de enviar para uma editora, principalmente uma grande. Precisa encontrar todos os furos, ouvir todas as opiniões e deixar a ideia dela amadurecer antes de mandá-la para a casa de alguém. Ela pode simplesmente não estar boa porque você não se dedicou, não caprichou, e existem aspectos que você ainda pode melhorar muito. E também, a editora pode ter recusado sua obra pelo simples fato de ela estar procurando algo para publicar diferente do que você enviou. Por exemplo: a editora pode estar procurando um novo 50 tons de Cinza enquanto você foi lá e enviou um batido Um Amor para Recordar e feito com que a editora não tivesse interesse.

Não encare como o fim da linha, e sim, como o começo da jornada. Muitos autores de sucesso foram rejeitados inúmeras vezes, e nem por isso eles pararam por aí. King teve Carrie, a Estranha rejeitado mais de 30 vezes; Rowling, com o sucesso Harry Potter foi rejeitado umas 14 vezes. E pobre Creasey, autor de romances policiais com diversos pseudônimos, que passou por nada menos que 743 rejeições antes de publicar o primeiro livro. Eles levaram uma série de “nãos” — até mesmo muito mais do que o normal atualmente — e nem por isso desistiram. Por que você desistiria?

A rejeição ajuda você a aprender com os seus erros. A famosa frase “aprenda com seus erros” é a mais balaio para consolos e conselhos de quem não sabe mais o que falar, mas não existe nenhuma outra que reflete mais na realidade do que esta. Muitas vezes cometemos erros e aprendemos com eles, isso é inegável — e não será diferente com o seu livro. Às vezes, pode ser que você precise de um “não” bem grande, em CAPSLOCK e negrito para aprender que talvez você precise sentar a bunda na cadeira e melhorar o que você escreveu; pode ser que o “não” te ajude a revisar a sua história e ver diversos pontos que podiam, ou devem, ser melhorados. Talvez até ajude alguns autores a engolirem o orgulho e procurarem por um beta reader ou algo parecido ao invés de escreverem só para si. Escrever para si é ótimo, é legal, e não tem coisa mais libertadora — mas a partir do momento em que você decide publicar, você vai precisar mais do que nunca de uma visão de fora para avaliar o conteúdo do seu livro e te ajudar a melhorar no que for possível.

Engole esse choro! Sempre digo que dor é uma parada relativa, que alguns suportam mais do que outros, até porque é algo extremamente real. Mas cada situação é uma situação. Recebeu o primeiro não? Engole esse choro e cresce. Nada de ficar choramingando nas redes sociais, xingando editora no twitter, fazendo chantagem de “se vocês não me publicarem, saibam que vocês perderam um puta autor bla bla bla bla”, reclamando do mercado editorial ou coisa parecida. Não perca seu tempo com isso. As editoras não vão vasculhar seu facebook ou seu twitter para saber se vocês estão falando mal dela ou choramingando porque “perderam uma chance”, vão ficar com peninha e resolver te publicar. Se recebeu o seu primeiro — segundo, terceiro, quarto, trigésimo — não, não se abale. Algumas editoras — ou até mesmo agentes literários — dizem em que ponto da sua história você pode melhorar ou coisa do tipo. Então, veja o que é preciso para que sua história fique realmente um primor e trabalhe nisso. E, se não falaram nada, bola pra frente: tem muitas editoras querendo uma chance com bons autores por aí. Tenta outras, não se prenda  a uma porque “foi essa que publicou a série X e eu amo ela”. Você pode namorar com ela, mas ela COM CERTEZA não te namora. Então segue reto toda vida, miga, e faz o teu trabalho. Ficar se vitimizando e xingando o mercado não vai te ajudar em nada, senão em um Zé Chorão Não Me Publicaram.

Ser rejeitado ou rejeitada por uma editora não é como terminar um namorico aos doze anos de idade, onde pensamos que é o fim do mundo, que nunca vamos encontrar algo igual, que nossos sonhos acabaram ou coisa parecida. A rejeição é a coisa mais comum no mercado das artes; muitas pessoas nas quais acreditamos podem não acreditar na gente, e para que o contrário aconteça, é preciso que você pegue a mão na massa e prove que vale a pena. Aquela editora não quis te publicar por que te acharam ruim? Não seja por isso. Leia mais, escreva mais, participe de concursos, faça seu nome, autopulique ou encontre outra editora queira investir em você… E prove que foi um erro. Não tem nada melhor do que provar para alguém que você é bom naquilo que a pessoa tanto desacreditava — nesse caso, não tem nada melhor do que provar para uma editora de que você VALE A PENA. E, para isso, você precisa aprender a lidar com a rejeição da melhor maneira possível. Até mesmo algumas editoras ou agentes literários podem deixar de investir em você porque você é um cuzão. Sabia disso?

— Desculpe-me, mas sua obra não será publicada conosco.

— Ok. Próximo.

Boa escrita para você!

Bio Gabs

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Um comentário sobre “Lidando com a rejeição: ela não é o fim do mundo

  1. Muito bom! Escrevi meu primeiro romance e confesso que ele já ficou pronto algumas vezes – porque sempre eu acho uma coisa nova pra mudar, quando eu achava que já estava pronto.
    Mas é verdade, é difícil lidar com rejeição. Às vezes precisa dar uma descansada, às vezes precisa abrir o olho e ver quanta coisa recebe críticas, mesmo as boas. Seus exemplos de famosos rejeitados me fizeram quase acreditar que quanto maior o número de rejeições, maior a chance de ter sucesso. Sei que não é assim, claro, mas como você bem apontou, se soubermos aproveitar as críticas para melhorar a obra, faz sentido.
    P.S: O que é ADP?

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