Escreve que passa: meu futuro não-amoroso e meu suposto egoísmo

PSD escreve

Quando você for mais velha, você vai mudar de ideia.

É o que sempre me dizem quando falo que não quero (ou não pretendo) casar e tampouco ter filhos. Tenho falado isso pela minha vida inteira e ainda assim tem gente que insiste em dizer que tudo vai ser diferente quando eu “crescer”. Aos dezesseis, falei isso pra alguém que rapidamente me cortou: — Quantos anos você tem mesmo?

Dezesseis.

Aos vinte anos, você vai estar casada há três anos e com dois filhos.

Se tem uma coisa que me deixa virada em um diabo é ouvir essa gente que às vezes nem sequer tem intimidade comigo, dizendo como vai ou não vai ser meu futuro, se vou ou não mudar de opinião sobre casamento, sobre filhos, sobre aborto, sobre feminismo, sobre isso ou aquilo. Amigo, vamos deixar uma coisa bem clara aqui: a vida é minha, por mais óbvio que isso pareça. Se eu vou mudar ou não de opinião — o que eu tenho certeza que não —, é problema meu. Você não tem nada que meter dedo na minha vida, sobre como eu ajo de acordo com a situação X, sobre como eu sou em relação à minha família, ou qualquer outra coisa. Vai cuidar do seu rabo que eu cuido do meu.

Dito isso, acho que posso continuar com meu texto.

Quando falo que não quero casar, que não quero ter filhos, que sou a favor do aborto ou qualquer coisa do tipo, o que eu mais vejo são essas pessoas balançando a cabeça negativamente e dizendo: “quando você for mais velha/encontrar a pessoa certa/tiver mais experiência/acontecer com você/pensar melhor/tiver mais idade/casar, você vai mudar de ideia”. Isso quando não é algo no estilo “ninguém sabe o que é viver antes de casar/ter filhos/engravidar/encontrar a pessoa certa”, ou “mas você é muito novinha para tomar essas decisões na sua vida; senta aqui, vamos tomar um Toddynho e conversarmos sobre isso”.

É engraçado quando uma pessoa totalmente decidida a não seguir o futuro que tantas outras escolheram, quase nunca é levada a sério.

A maioria das pessoas nunca acreditam que dá para ser feliz sem parir uma dúzia de ranhentos ou sem casar com o homem da sua vida (que em 90% dos casos vai se tornar um babaca otário que não te ajuda nem a tirar a louça da mesa daqui um tempo e te coloca cada vez mais pra baixo falando do seu peso); acreditam que só porque elas seguiram esse caminho de casar e ter uma dúzia de filhos, todas devem seguir também porque não tem como ser feliz ou se sentir realizada sem isso.

Quero dizer: qual o problema de se sentir feliz sozinha, curtindo a sua vida consigo mesma? Por que isso sempre é motivo de escândalo ou deboche? Qual o problema de levar uma vida no singular? Por que as pessoas nunca acreditam que é possível, sim, que alguém seja realizada, seja feliz, esteja realmente contente e curtindo a vida estando sozinha, trabalhando, sem ter filhos?

Migas, vocês acham que eu sou louca, mas na verdade, sou eu quem acha alguém louco aqui.

A vida não se resume a “casar”, “encontrar a pessoa certa”, “engravidar” ou “ter uma penca de filhos”. Pelo menos, não a minha. Esse não é o meu objetivo. Eu quero trabalhar. Quero continuar a escrever, crescer na minha carreira, viajar o mundo todo, conhecer pessoas novas, ir para a Lua e voltar, morar em outro planeta. Meus objetivos são muito singulares. Sim, dá para “encontrar uma pessoa certa” para fazer isso tudo comigo, mas eu não quero. E, além disso, filhos só atrapalhariam meus objetivos, me deixariam cansada por dias, me estressariam até o último. Como eu sei se não tenho filhos? Migas, eu tenho um afilhado e tive um irmão seis anos mais novo que eu. Já dá pra ter uma noção apenas por isso.

Minha família me acha bizarra (isso quando não cogitam que sou gay) quando falo que estou bem sozinha, sem namorados nem nada. Ou quando perguntam “e os namoradinhos”, e eu respondo “matei/queimei/mandei à merda todos eles”. Acham que tem alguma coisa errada comigo, que alguém me magoou ou coisa do tipo, principalmente quando falo que não pretendo namorar tão cedo ou sequer voltar a namorar e a ter um relacionamento de verdade. Principalmente casar.

Não, migas. Não é porque me magoaram, apesar de ter acontecido muito. Não é por ter medo. Não é por nada disso. É porque eu não quero ter filhos.

Talvez, sim, tenha uma ponta de medo nisso aí. De encontrar alguém por quem eu me apaixone, e queira mudar de ideia sobre casar ou coisa parecida e de repente a pessoa me diz que quer ter filhos e eu… não quero. Eu sei que não quero, nem nunca vou querer, e isso é algo essencialmente meu e nunca, em circunstância alguma, vou abrir mão disso por alguém. Eu não quero namorar porque eu sei como muitos caras estão hoje, principalmente os que eu esbarro por aí em festas, em happy hours, em cinemas: caras “legais”, que querem casar, ter uma vidinha bonita e legal em uma casinha de cercado branco e a sala cheia de filhos.

Eu não quero isso para mim. Eu não quero estar com alguém que sabe o que eu não quero, para essa pessoa acordar daqui uns dez anos, todo arrependido, me cobrando um filho ou me culpando pelo tempo que ele perdeu comigo por eu nunca querer abrir mão de algo que eu não queria para dar essa chance a ele. Por mais que na hora o cara diga “tudo bem, também não quero ter filhos”, um dia ele vai ver todos os amigos dele casados, com uma penca de filhos, todos dividindo atividades, encontros e tudo e o cara vai ficar: poxa, eu poderia ter um também. Não é difícil. É só meter e gozar dentro. E então, ele vai me cobrar um filho. Vai querer fazer. E eu não vou querer. E vamos discutir. E vai ficar tudo bem. E então, um dia, isso vai voltar a ser discutido. E sempre que tiver uma discussão, isso é algo que vai estar sempre em pauta: o fato de eu nunca ter aberto mão de não querer ter filhos por ele.

Eu sou egoísta, muito individualista quanto aos meus objetivos, os meus sonhos. Por mais que eu possa amar muito alguém, eu nunca abriria mão dos meus objetivos por essa pessoa, porque aprendi que não vale a pena. Não vale a pena deixar tudo para trás por alguém que você nem sabe que vai estar lá no dia seguinte. Não vale a pena deixar de ser feliz por algo que você quer muito, apenas para depositar sua felicidade em alguém. Felicidade é uma coisa que não dá pra tirar de um lugar e colocar em outro sem consequências. Ela fica em um lugar. Só um. Se você tira ela de lá, ela some, desaparece, e quem sabe nunca mais volta. E a única coisa que fica é o arrependimento. O arrependimento de ter feito aquilo; de ter tirado a sua felicidade da sua caixinha especial e tentado levá-la para outro lugar, quando você sabe que ela é tão leve como o ar, tão fina como um fio de cabelo e tão suave como um suspiro.

Eu quero viajar. Eu quero aproveitar minha vida. Quero beber todas as tequilas e uísques que conhecer, quero viajar por todos os lugares que puder e tiver interesse, quero experimentar todos os tipos de Kinder, quero ler todos os livros que estão na minha wishlist, quero ter tempo para mim; quero saber como que é o frio na Inglaterra, o verão na Irlanda, as compras em Miami, a praia na Califórnia e o luxo em Dubai. Quero saber o que é ser do mundo e não ser de ninguém. Quero ir e sair da vida de pessoas sem dar satisfações, como saio de casa nos finais de semana e volto apenas na segunda-feira. Quero me trancar no quarto sem dever satisfações e escrever até cansar os dedos, apenas para depois sair e ir para o bar comemorar o fim de outro livro novo. Eu quero viver. E quero viver de mim, por mim e só para mim. Colocar um elemento marido ou filho no meio não faz parte da equação. Nunca fez.

Algumas pessoas simplesmente não entendem isso e tentam; e forçam, e reforçam, e continuam tentando enfiar essa ideia na minha cabeça, de que quando eu tiver mais idade eu vou mudar. Meu desgosto por isso é tão grande, tão óbvio e eu já falei isso tantas vezes quando me sentia pressionada, que quase me sinto aquele filho gay, que sempre deu sinal a vida inteira de que era, e quando assume ou cai a ficha de todo mundo, as pessoas ficam: não acredito! Nunca imaginei! Não acredito nisso! Que baque!

Principalmente, não me conformo ainda que as pessoas acreditam que você precisa viver a vida em plural para ser feliz. Que uma pessoa estando sozinha não pode ser feliz estando sozinha romanticamente.

Adivinhem só?

Estou solteira, tenho vinte anos, não casei e nem quero, não quero e nem tenho filhos, e nunca cresci tanto na minha carreira como cresci nos últimos tempos, nunca evoluí tanto como evoluí nesses últimos meses morando sozinha, e nunca aprendi tanto comigo mesma quanto eu aprendi com várias pessoas na minha vida inteira. E, principalmente, nunca tive tanto amor próprio antes quanto tenho hoje. Nunca gostei tanto de mim, me aceitei tanto, me curti tanto antes como hoje. Hoje eu posso dizer que me amo de verdade, que me valorizo, que sei o que mereço e que o que eu mereço é ficar sozinha, porque eu sei que eu sou a minha melhor escolha e eu sei me dar o valor que mereço.

Ficar sozinha só me fez bem. Depender de mim, não me apegar, me amar e me cuidar é a melhor coisa para mim. Eu sei que faço isso melhor do que ninguém. E sei que não sou a única que pensa assim.

Só não enxerga isso quem não quer.

Bio Gabs

Anúncios

Um comentário sobre “Escreve que passa: meu futuro não-amoroso e meu suposto egoísmo

  1. Adorei seu texto! Também ouço muito isso: que quando eu for mais velha vou mudar de ideia e desejar marido e filhos, como se fosse isso que tornasse uma pessoa madura.
    Acho que não existe nada melhor do que ficar sozinha. Lógico que de vez em quando é legal sair com a família e passar um tempo com ela (não sou muito de sair com amigos), mas eu sou o tipo de pessoa que precisa de um tempo só para mim, e consigo me divertir sozinha (existem pessoas que não entendem isso também, que acreditam que só porque você passa muito tempo sozinha e não tem muitos amigos é infeliz). Mal vejo a hora de ter condições de viver sozinha. Ainda que goste muito de minha família, nem sempre sou livre para fazer aquilo que eu quero, e sou sempre cobrada sobre os porquês. Acredito que parte disso (e também das cobranças sobre marido e filhos) seja das redes sociais. As pessoas veem os outros compartilhando cada detalhe da vida a cada instante, e por isso acreditam que todos devem falar sobre sua vida pessoal, não se pode esconder mais nada.
    Mas deixando as divagações de lado e retornando ao assunto do post, eu poderia dizer que sou casada, sim. Sou casada com as palavras e através delas tive vários filhos, os personagens de meus livros =)

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s