Poetizando o que deveria ser simples

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“Mas que belas indumentárias podálicas tu usas! Estarias disposta ao ato do coito?”

Corta pra mim! Você entendeu isso? Sim? Não? Porque eu, de primeira, não entendi. Só depois que isso é apenas uma poetização da famosa cantada “Bonito sapato! Quer transar?”. Aí eu te pergunto: qual a necessidade disso?

Brincadeiras à parte, mas nesse post eu quero falar sobre algo que tenho visto com muita frequência e que tem deixado eu e a vários leitores confusos, zonzos e vesgos: o floreio, a poetização e a “aureliolização” do que deveria ser, nada mais, nada menos, do que simples.

Sim. Um texto com palavras mais rebuscadas é bonito, é interessante, parece mais adulto e profissional; mas dê esse texto para quem não manja dos paranauês do português e você só vai ver a pessoa no piloto automático ao melhor estilo do “sorria, balance a cabeça e acene no final, como se estivesse entendendo tudo perfeitamente bem, quando não está”. Se você não está familiarizado com esse tipo de sensação, principalmente se isso nunca te aconteceu na escola ou na faculdade, meus parabéns: você é um gênio.

Uma das coisas que os escritores precisam entender é que, muitas vezes, eles não estão escrevendo apenas para outros escritores, que entendem da língua tanto quanto eles. O público de leitores é muito amplo, partindo desde crianças até idosos, homens, mulheres, leitores assíduos, gente que lê para passar o tempo no consultório, gente que lê por obrigação. Ao escrever algo que vai ser publicado, você, escritor, precisa saber que seu escrito pode atingir vários públicos, de diversas experiências e conhecimentos na vida, na língua, em histórias, e que seria muito bom se você fizesse algo que pudesse ser do entendimento geral. Harry Potter, por exemplo, é uma história que pode ser lida desde crianças até pessoas mais velhas — e não só porque Hogwarts é maravilhosa, mas também porque tem uma linguagem fácil, uma narrativa que flui e que é interessante para pessoas de qualquer idade.

Ao aderir a uma palavra rebuscada, pergunte-se: qual a necessidade disso? É sério. Qual a necessidade de usar “jactam” (que, inclusive, na primeira vez que li, achei que era algum remédio para o intestino) ao invés de usar “vangloriam-se”? Qual a necessidade de trocar o simples pelo sinônimo bonito e que parece nome de remédio e que vai fazer com que seu leitor vá para o dicionário várias vezes? Uma coisa é você ter um romance de época, onde a linguagem formal é necessária, palavras desconhecidas ainda mais; só que o leitor vai saber aonde está se enfiando ao pegar o seu livro para ler. Mas outra coisa, completamente diferente, é escrever um romance moderno em que os personagens falam português de Portugal de 1500 e guaraná com rolha. Não faz sentido. Não tem necessidade.

Quanto mais simples, melhor — inclusive, menos é mais. “E o líquido vermelho da vida escorria velozmente pelo membro forte…” PARA, MIGA. Custava escrever que o sangue escorria ou jorrava do braço do cara? Não, não custava. Além de deixar a leitura mais arrastada — porque esse tipo de linguajar, principalmente para leitores jovens, apesar de “legal” e “caprichado” na visão deles, é algo bastante tedioso para ler vários capítulos seguidos —, parece que você está tentando escrever uma redação do Enem que precisa preencher trinta linhas e fica metendo linguiça atrás de linguiça pra concluir algo que podia ter sido feito na terceira linha. Simples é mais. Faça algo que seja do entendimento geral. Escreva com mais simplicidade, assim, a leitura fluirá com mais facilidade até mesmo para você ou para os profissionais que trabalham no seu livro para a edição dele. E, com isso…

Não escreva um livro pela quantidade de páginas que você quer que ele tenha. Qualidade é melhor que quantidade. Nem tudo o que é grande, que vende muito, ou que faz sucesso é necessariamente bom. Isso é fato. E não necessariamente pelo seu livro ter 400 páginas que ele é bom por tabela. A série Crepúsculo tinha quatro livros e pra mim era uma titica, enquanto Não se Esqueçam da Rosa mal passa de sessenta páginas e eu acho um primor (no qual o livro eu li quando tinha uns nove anos e me marcou, me recordo e me é importante até hoje). Trabalhe mais na qualidade do seu livro, na história que ele tem para contar. As palavras rebuscadas são o de menos. Escreva com simplicidade e deixe a história fluir. Uma história que flui é muito melhor que uma história que, apesar de bem escrita na linguagem formal, ainda faz com que muitos leitores parem tudo e vão ler um dicionário antes de voltar a ler seu livro.

Legal que você escreveu sua distopia que se passa no ano de 2742 com o português usado no século XV. Mas qual a necessidade disso mesmo?

Boa escrita para você!

Bio Gabs

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Um comentário sobre “Poetizando o que deveria ser simples

  1. Suas dicas tem me ajudado muito! Eu quero escrever um romance de “conto de fadas”, ou melhor dizendo de época, mas tenho medo de fazer a leitura ficar cansativa, além da minha grande autocrítica que não ajuda (rs)
    Mas sério, muito obrigada, meus parabéns pois seus posts conseguem ser sérios e ao mesmo tempo com uma leitura divertida, que ajuda bastante
    Um beijão!

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