Na sua história, você pode tudo: sobre a cagação de regra na literatura

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Se tem uma coisa que me deixa louca é cagação de regra. Cagação de regra no que eu quero fazer da minha vida, cagação de regra sobre o que eu visto ou deixo de vestir, cagação de regra sobre o que faço ou não com meu útero, cagação de regra sobre o que eu faço ou deixo de fazer entre quatro paredes com alguém, cagação de regra no que eu escrevo…

Cagação de regra em si é algo insuportável de se aturar e muitas vezes quem vem se bancar o fiscal da minha vida eu mando dar uma voltinha com uma passagem só de ida para a Puta que Pariu com direito a visita ao ponto turístico com entrada para a Merda.

Agora, como se já não bastassem querer cagar regra sobre o que você deve fazer com a sua vida, quem você deve namorar, o que você deve fazer com o seu corpo, também querem cagar regra sobre o que você escreve. Que atire a primeira pedra em quem nunca ouviu:

  1. Você é brasileiro, deve escrever histórias ambientadas no Brasil;
  2. Esse tema está batido, faça algo melhor;
  3. Todo mundo já viu essa história do herói escolhido indo para um mundo desconhecido, muda isso aí;
  4. Nossa, história de bruxos/deuses/câncer/distopia/morte/virgindade já têm aí, faz algo diferente;
  5. Ai, esse ser que você está usando na história é muito gringo. Faz o cara um Curupira, fica bem mais brasileiro!;
  6. Você nem conhece o lugar X, como vai ambientar sua história ali?;
  7. Não use pseudônimo, use seu nome mesmo;

Se você já ouviu tudo isso, pode gritar bingo. Não vou te julgar. Inclusive, eu quase fiz um bingo de todas as asneiras que já ouvi de gente que só sabe fazer o fiscal da vida alheia. E gritei bingo algumas vezes. Tem gente que se supera.

Muitas vezes a cagação de regra é em base da sua nacionalidade. Você é brasileiro, então: não pode ambientar sua história fora do Brasil; não pode ter personagens com nomes estrangeiros; não pode usar um pseudônimo com sobrenome estrangeiro; não pode usar nenhuma criatura fantástica que não seja brasileira; ou seja, você não pode nem dar um peido se ele não tiver cheiro de peidinho brasileiro. Se não, você é um patriota de merda e um escritor de merda que segue a onda de escritor estrangeiro.

Vem cá, vou te contar uma novidade: você não é obrigado a escutar nenhuma dessas asneiras e tampouco levá-las a sério.

E sabe por quê?

Porque a história é sua. UNICAMENTE sua. Você é livre para escrever sobre quem e o que quiser. Quem está escrevendo é você, quem está fazendo ela desenvolver é você, quem teve as ideias foi você. Ninguém de fora tem que dar pitaco no que você deve ou não fazer na sua história sem que você queira — principalmente se for alguém que não tem moral nenhuma para falar isso, por exemplo, seu primo otário que nunca leu nada além da sessão Privê do jornal. Ninguém tem que cagar regra sobre onde você deve ou não ambientá-la, sobre o que deve ou não usar nela porque “é assim que funciona”. Teu cu. A história é sua. Se você quiser colocar um pônei colorido que luta kung-fu e usa uma tanguinha como protagonista, você pode. Se você quer usar a jornada do herói, você pode. Se você quer colocar um casal com câncer e que um deles vai morrer, adivinha só: VOCÊ PODE. Você pode tudo nessa merda.

Esse povo que fica cagando regra no que você escreve ou não, não está pagando suas contas, não está te alimentando e tampouco te fazendo crescer como escritor. Existe uma diferença enorme entre crítica construtiva e cagação de regra. A crítica te ajuda a melhorar a história, te ajuda a aperfeiçoar o que você já tem escrito e a te amadurecer como escritor, a encontrar os seus erros e aprender com eles. A cagação de regra só faz você jogar tudo fora e começar de novo contra a sua vontade porque uma pessoa achou melhor que fosse assim e acha que conhece toda a sua história, e inclusive você, para dar pitaco, falar que é isso mesmo e que é certo assim. E muitas vezes quem caga regra são as pessoas que não têm a menor moral para isso.

Sim, pode ser que a sua história não fique boa. Pode ser que fique sem sentido, que tenha um tema batido ou coisa parecida. Qualidade literária é uma coisa muito pessoal. Por exemplo: tem gente que idolatra Lucíola, de José de Alencar; eu já achei uma merda. Tem gente que fala que Harry Potter é uma bosta; eu já acho excepcionalmente bom. Tem gente que ama 50 tons e cinza; eu já acho ridículo e infantil demais até mesmo para esse tema. Tem gente que gosta de cães, tem gente que gosta de gatos, tem gente que come salada, tem gente que morre sem um final de semana com churrasco. Se a sua história com pônei colorido que luta kung-fu e usa tanguinha te agradou, quem sou eu para dizer o contrário? Eu não sei qual a vibe do pônei, não sei o que essa história significa para você. Assim como você tem o direito de escrever sobre seus pôneis coloridos, eu também tenho o meu direito de escrever sobre a jornada do herói. Cada um fica no seu canto e escreve sobre o que quiser. Se organizar direitinho, todo mundo escreve e segue com a sua vida e ninguém mete o bedelho na vida e no caderninho de ninguém.

Vale muito mais você ficar se preocupando com a sua história, com o enredo, com o desenvolvimento, do que com a opinião de gente caga regra que acha que só porque a vida é X, você deve escrever Y. Ou só porque você é brasileiro você só deve escrever histórias brasileiras. Ou só porque você é virgem, você deve escrever histórias sem sexo. Muitas vezes quando escrevemos sobre coisas que não conhecemos, o resultado final pode não ficar bom. Mas a internet está aí: você tem acesso a todo e qualquer tipo de informação, e você não vai perder os dedos se for pesquisar ao menos só um pouquinho sobre o assunto que está escrevendo, pra não falar merda e ainda dar razão aos caga regras insuportáveis.

Boa escrita para você!

Bio Gabs

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2 comentários sobre “Na sua história, você pode tudo: sobre a cagação de regra na literatura

  1. Concordo! Hoje em dia há livros para todos os gostos, e enquanto meus livros não vierem com a frase “obrigatório ler esse livro”, não tenho a menor obrigação de agradar a essas pessoas. Se não gosta do tema, ou se prefere não ler livros de brasileiros que não ambientem suas histórias no Brasil, você é livre para não ler. Certamente há muitos outros livros que se encaixem em seu gosto (e se não houver, escreva-o, em vez de tentar mudar a história dos outros).

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  2. Essas pessoas que infernizam a vida dos outros e criticam uma obra alheia apenas por não seguir suas regras pessoais, coisa adquirida e melhorada por todos, parecem evangélicos tentam converter… Não há um post de histórias que vão contra o patriotismo sem comentários de “Ah, seu personagem não é estrangeiro porque você escreve por modinha” (NÃO, escrevo a história do meu jeito com os meus personagens e meus temas porque assim me agrada)…
    Acho que uma coisa que todo escritor deveria ter em mente é: Só se meta onde for chamado e escreva primeiro para você.

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