Escreve que passa: sobre escrever o que está em alta

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Eu escrevi um livro de vampiros. Uma trilogia de vampiros, mais precisamente. Escrevi em um tempo de seis meses cada livro, que deveria ter acabado no primeiro, mas resolvi continuar porque eu adorava aquela história e sempre surgiam novas ideias que poderiam deixar a história ainda mais completa. Quando comecei a escrevê-lo, Crepúsculo estava em alta. Brotavam histórias de vampiros do teto, era livro de vampiro para todos os lados e só se encontrava isso nas livrarias. Mas quando terminei de escrever, os anjos estavam em alta, e a moda estava partindo suavemente para as distopias com a chegada de Jogos Vorazes.

Infelizmente (ou felizmente) nunca publiquei esse livro. Ele está empoeirado nos meus arquivos.

O ponto é que não escrevi aquela história por causa da onda de Crepúsculo, que está na moda escrever sobre vampiros ou coisa do tipo. Eu escrevi aquela história porque eu tinha uma afeição grande por ela e ela já balançava na minha cabeça há um tempo, pedindo por atenção. Eu não queria escrevê-la porque eu também fui contagiada pela vibe de Crepúsculo e não queria que minha história saísse naquele estilo. Não saiu, graças ao meu bom senso.

Mas eu vejo situações assim se repetirem todos os dias com diversos escritores. Agora, a distopia está em alta; por isso, vejo uma série de escritores também escrevendo distopias. Inspirando-se em apocalipses originados de guerras químicas, uma visão da Terra devastada e com poucos sobreviventes, ou que mostra um tipo diferente de sociedade onde as pessoas são separadas em “grupos” de personalidade ou sofrem uma grande alteração no comportamento; algo estilo Jogos Vorazes, The 100, Divergente, Delírio, Puros, dentre outros. A vibe atualmente está muito sobre as distopias. E muitos autores têm se empenhado em escrever seus livros o mais rápido possível para que consigam atender às exigências de leitores ansiosos e famintos por mais distopias e histórias maduras e realistas.

A questão é: por quanto tempo as distopias vão estar em alta? E o quão boa as histórias desses autores estão, por terem sido, muitas vezes, escritas às pressas para que consigam pegar carona na onda da distopia? E quantos desses autores não mudaram completamente as histórias que já estavam escrevendo há anos, apenas por quererem seguir o que está na moda, o que os leitores querem?

Esses são os grandes problemas.

Vejo uma penca de autores, todos os dias, escrevendo histórias sobre o que está em alta. Escrevendo histórias de conteúdo que nem eles mesmos conhecem ou gostam. Vi autores e autoras, que tanto julgaram a literatura erótica, agora escrevendo as mesmas histórias que tanto julgavam. Vi autoras que antes diziam adeptas da literatura dramática e romântica adolescente se jogando de cabeça em escrever distopias com um enredo tão complexo que até elas mesmas se perdem dentro dele e de repente, nada mais faz sentido na narrativa. Existem muitos autores, hoje, que estão escrevendo o que está em alta, para serem “aceitos” pelas editoras e amados pelos leitores, ou até mesmo na tentativa de aumentar sua visibilidade por estar escrevendo o que todo mundo quer; mas até agora, vi poucos autores que estão escrevendo o que já saiu da moda, o que não é atrativo para os leitores, apenas porque gostam de escrever e apostando na originalidade de suas histórias.

O problema não está em escrever o que está em alta. O problema é se obrigar a escrever sem saber exatamente o que vai escrever. O problema está em criar uma história de qualquer jeito, juntando o elemento X, Y e Z e jogando em um mundo pós-apocalíptico e escrevendo como der. Muitas vezes não fica bom; fica uma bela merda. Porque a história não se desenvolve, não sai do que todo mundo já cansou de ver em diversas histórias (por exemplo: da garota invadindo a sala de arquivos da escola para encontrar a ficha de um aluno misterioso, que no fim, não dá nenhuma informação relevante ou simplesmente nenhuma informação; Deus do céu, eu já vi isso umas sete vezes em sete livros, onde a temática dos sete eram diferentes). Fica a mesma história se repetindo cada vez mais, porque a única base desse gênero que você tem, é, justamente, apenas o que está sendo vendido atualmente, e dificilmente os autores pegam referências a partir de outras obras mais antigas e até mesmo muito diferente, ou criam suas próprias ideias.

Quer escrever uma distopia, um erótico, um drama de chorar oceanos, uma história bonita sobre câncer, só porque está na moda agora? Vá em frente. Ninguém está te impedindo. A história é sua. Mas mostre um diferencial. Mostre qualidade. Mostre algo bom e que mereça ser lido, não porque é algo que todo mundo está lendo agora, mas porque é uma história diferente e aparentemente boa e bem trabalhada. De nada adianta escrever um livro do tema que tá todo mundo querendo ler em três meses se ele não faz sentido, tem uma história confusa e pouco desenvolvida e personagens fracos. Não é questão de originalidade; é questão de dedicação. Dedicação para pesquisas. Dedicação para a escrita. Dedicação para momentos de buscar inspiração. Dedicação para criar uma história que possa ter uma premissa clichê, mas que mostre um diferencial interessante e que valorize ainda mais ela e mostre que, apesar de se parecer com as outras já publicadas, ela merece ser lida pelo leitor.

Não vá pela moda. Não vá pela lista dos mais vendidos no Times ou do PublishNews. Não vá pelas franquias milionárias da literatura e cinema. Vá por você. Pelo o que você quer escrever. Pelas ideias que você tem na cabeça, pelas histórias que você escreve todos os dias. Se isso te levar a um desses temas, tudo bem. Mas saiba como trabalhá-lo bem e trazer o destaque que ele merece. Não deixe de escrever o que você gosta ou que já está trabalhando apenas para seguir o que está em alta e tentar angariar leitores para o seu lado. Sua história tem o mesmo potencial que os best-sellers. A diferença é que ele ralou para estar lá, enquanto você está aí tentando pegar carona no sucesso dele ao invés de criar o seu próprio sucesso.

Inclusive, modas vêm e vão o tempo inteiro. Vampiros vieram, foram, e não duvido que algum dia desses eles voltem novamente (mas sem a parte do brilho), assim como os eróticos, distopias e dramas com câncer podem ir e voltar qualquer dia desses. Você pode ver pelos antigos best-sellers e os atuais e encontrar as semelhanças. Não é tão difícil. Não perca tempo tentando escrever algo para agradar aos outros. Perca tempo tentando escrever algo para agradar a você. Você é o seu melhor leitor, mais severo crítico e revisor. Se você ir pela moda apenas porque está fazendo sucesso agora, sinto em lhe dizer, mas a possibilidade de você terminar o seu livro (com qualidade) e a bendita da moda ter passado é muito grande.

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