Personagens inspirados em pessoas que você conhece: talvez não seja uma boa ideia

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Muitas vezes eu vi autores dizendo que X personagem foi inspirado em alguém que ele conhece: sua amiga, seu amigo, sua mãe, seu irmão, sua ex-namorada — geralmente é aquela que morre na história da maneira mais bruta possível —, e afins. Alguns acham isso o máximo, de criar um personagem totalmente baseado em alguém que você conhece; considera isso como uma homenagem para a pessoa. Mas, ao mesmo tempo em que vejo autores dizendo que isso serve de homenagem, também vejo alguns autores ou até mesmo as pessoas que serviram de fonte de inspiração se sentindo ofendidas.

Eu, particularmente, não sou adepta dessa prática. Tento ao máximo criar meus personagens sem me inspirar em ninguém de verdade — talvez em um ponto ou outro da personalidade ou atitude, mas nunca em pegar tudo da pessoa que conheço, muitas vezes contando até mesmo com a característica.

O problema de você escrever um personagem totalmente inspirado em alguém que você conhece, é, de maneira óbvia, você fazer isso errado.

Coloque-se no lugar da pessoa: e se alguém escrevesse sobre você como um vilão, extremamente malvado, frio e sem coração, além de péssima aparência, e ainda te matasse no final? O que você iria pensar? Muitas vezes a resposta é: que sou uma péssima pessoa de tão baixo nível, que o autor me odeia e que me quer morto, ou realizou o desejo de me matar através da escrita.

E se alguém que diz que criou um personagem inspirado em você, e ele é o protagonista bobo, idiota, que acredita em todo mundo e cai sempre no conto do vigário; o que você iria pensar? Que sou idiota, faço papel de trouxa e é essa a imagem que ele tem de mim.

Antes de se inspirar em uma pessoa que você conhece para montar um personagem e sua história e depois dizer isso a ela, você precisa pensar em uma penca de coisas. Como eu disse antes, a pessoa pode tanto ver algo legal nisso, como uma homenagem, algo de grande importância, como também pode achar isso uma ofensa, dependendo de como você colocar o personagem inspirado na história.

Pense bem antes de resolver inspirar seu personagem em alguém. Pense como a pessoa: você irá gostar da maneira como será apresentado na história? Você não se sentirá ofendido? Você vai criar um personagem verdadeiramente parecido com essa pessoa para dizer que realmente foi inspirado nela? A pessoa vai gostar de ser o vilão sem escrúpulos e que vai morrer, ou de ser o mocinho virginal puritano que salva todo mundo? Personagens criados sob a base de uma pessoa existente dá um trabalho. Na dúvida, converse com a pessoa na qual você está inspirando ao invés de “fazer surpresa”. Veja se a “homenagem” é aplicável para que você não perca um amigo.

Ninguém é perfeito. Como eu disse, criar personagens baseados em uma pessoa real dá trabalho, principalmente se você não quiser criar problemas com essa pessoa para que ela se sinta ofendida ao colocar um defeito daqueles. Os melhores personagens são aqueles que têm verdadeiros defeitos, nos quais o leitor consiga se encontrar com eles em alguns pontos. Ele pode ter uma penca de qualidades, mas ele não pode, em circunstância alguma, ser apenas “um pouco desastrado”. Coloque defeitos verdadeiros nele. Criar um personagem inspirado em alguém, além de impossibilitar a inserção de grandes defeitos neles para que a pessoa não fique chateada ou ofendida, vai lhe obrigar a criar um personagem supostamente perfeito, bonzinho, sem graça, que segue o estilo de vida “não bebe, não fuma nem fode” — ou para aqueles que têm amigos vidaloka, será o personagem cabra macho fodelão que toma uísque com chumbinho no café da manhã —, e que os leitores vão querer jogar contra a parede e dar uns tapas.

Você não conhece de verdade a pessoa na qual está se inspirando. Na verdade, você não conhece ninguém em sua totalidade. As pessoas quase nunca mostram verdadeiramente quem são para as outras, quase nunca mostram seus piores defeitos ou pensamentos, ou compartilham dos seus segredos mais profundos. Pense nisso. Às vezes, a atitude de alguém pode ser justificada por um segredo no qual você nunca vai saber e, se colocar isso no seu livro e querer justificar, vai estar irritando ou, novamente, ofendendo a pessoa, que vai acreditar que o motivo de ela agir de maneira X é fútil ou não tem nada a ver com a realidade.

E, por causa disso, é extremamente difícil você criar um personagem inspirado em alguém e conseguir passar tudo da pessoa para esse personagem em sua totalidade.

Não tenho muitas dicas a dar sobre isso, até porque só escrevi até hoje uma única história com uma pessoa que inspirou um personagem, e a única coisa que consigo dizer é que: é foda. No pior sentido. Você nunca sabe a imagem que está passando de verdade da pessoa naquele personagem, nunca sabe se os pensamentos, ideologias e demais pontos de personalidade estão coerentes com o personagem e sua história de vida ou presença no livro. É extremamente difícil colocar uma pessoa de verdade, resumi-la em palavras, principalmente em apenas um personagem.

A minha dica é: evite fazer isso. Quer colocar um pouco de alguém que você conhece na sua história? Coloque uma característica marcante, uma mania, uma frase “bordão” dessa pessoa, uma história ou um segredo que apenas vocês dois sabem. Evite colocar pessoas de verdade em seus personagens, por mais que pareça ser uma boa ideia. As chances de isso dar errado são maiores do que as chances de isso dar certo. Você poderá perder tanto um amigo quanto qualidade de texto toda vez que seu personagem entrar em cena, por você estar sempre preso e com um pé atrás sobre o que escrever desse personagem sem que a pessoa não fique chateada com você, por mais que a história seja sua.

Já escreveu personagens se inspirando em alguém? Tem novas dicas? Compartilha aí! ;)

Boa escrita para você!

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Um comentário sobre “Personagens inspirados em pessoas que você conhece: talvez não seja uma boa ideia

  1. Nunca escrevi um personagem baseado em outras pessoas, o máximo que fiz foi dar o nome de uma menina que eu odiava à vilã da minha história (mas depois mudei porque achava que não combinava muito com a vilã) e o nome de dois amigos meus a um casal, porque eles pediram.

    Acho que o que você falou faz sentido: não temos como conhecer uma pessoa em sua totalidade. Outro dia, em um desafio para o “642 coisas sobre as quais escrever”, comecei a pensar sobre como outras pessoas me veriam, e cheguei à conclusão de que a única coisa que elas podem saber sobre mim é que leio muito, a menos que venham conversar comigo. Desse modo, faz muito mais sentido usar apenas uma característica, afinal sabemos só daquilo que vemos e sobre o resto podemos apenas supor, de forma que, por mais que tentemos reproduzir aquela pessoa fielmente, vamos conseguir apenas um personagem com uma ou outra característica em comum.

    De qualquer forma, isso parece dar bastante problema, tanto para a história quanto para sua reação com os amigos (e acho que pode acontecer algo bem pior que perder um amigo; não sei se é possível processar alguém por isso).

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