Escreve que passa: Dezembro, nostalgia e aceitação

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Dezembro é um mês que costuma me deixar muito nostálgica e me faz pensar em uma série de coisas. Hoje, especificamente, estive pensando nos tempos do colégio e me dei conta que, em partes, eu sentia falta da escola. Das pessoas, dos professores, de acordar cedo para ir à aula e dormir na primeira, de comer pão de queijo, de conversar com os amigos sobre livros no intervalo ou até mesmo durante as aulas e tentar aprender sobre exatas, conjunto de matérias na qual nunca fui realmente bem.

Então eu me lembrei de todas as vezes em que passei mais tempo triste do que realmente feliz na escola. De todos os anos em que fui motivo de piada por causa do meu cabelo excessivamente cacheado ou do meu nariz excessivamente grande; de todos os anos que passei metendo química após química no meu cabelo, alisando-o até não dar mais, para me tornar no mínimo um pouco aceitável e não diferente das outras meninas. Dos anos em que tentei fazer amizades, em que tentei me adaptar no ambiente escolar, transitando nesses anos entre duas escolas diferentes em períodos diferentes, e em ambas ter uma imagem péssima por causa da minha aparência; ser chamada de Bruxa Keka só porque eu tinha cabelo cacheado com a ponta colorida de roxo, ou de Tucano por ter um nariz grande, no qual puxei de meu pai. Eu me lembrei de todos os anos em que passei tentando ser aceita, tentando mudar quem eu realmente era para poder fazer amigos ou ao menos acabar com as chacotas sobre a minha aparência, sobre como eu era, como me vestia ou como agia. Das vezes em que eu me olhei no espelho e chorei por me sentir horrível por ser daquele jeito, por ser sempre motivo de piadas, encontrando mais defeitos do que eu poderia contar nos dedos. Eu me lembro, também, de que uma das poucas amizades supostamente verdadeiras que fiz, mais gostava de me colocar para baixo do que ficar ao meu lado e me segurar toda vez que eu ameaçava cair, e só depois de abandonar a escola que eu vi que aquela pessoa não era realmente quem eu pensava que era, e eu era na verdade mais um saco de pancadas do que uma verdadeira amiga. Eu também me lembro de quando ninguém queria ser líder de sala, e apenas eu me candidatei, e quando houve a votação, todos votaram em branco e até mesmo fui chamada na coordenação para “não ficar mal com isso” — o que é meio impossível você ter 15 anos, ser rejeitada o tempo inteiro na escola e ainda ser rejeitada por uma coisa que ninguém queria e apenas tinha eu de opção, e ainda “não ficar mal com isso”.

E eu me lembro, principalmente, de me isolar totalmente no mundo dos livros e das minhas agendas nas quais eu escrevia minhas histórias quando vi que nada que eu tentei havia funcionado. De ficar escrevendo ou lendo enquanto a aula ocorria. E para ter a certeza de que eu quase nunca dava um pio na sala de aula, nem os professores me notavam lá no canto da classe, encolhida, lendo meus livros, escrevendo minhas histórias, imersa no meu mundo.

E sabe o que eu percebi?

Eu percebi que todo esse tempo em que passei tentando ser aceita, tentando ser como “as outras meninas” como meu pai tanto queria, tentando ser aquela pessoa que eu definitivamente não era e nunca seria, foi gasto em vão. Porque eu não precisava disso para atingir meus objetivos. Que eu nunca precisei disso para ser quem eu sou hoje e conquistar todos os meus sonhos. Que eu nunca precisei alisar o cabelo, mudar meu jeito, me vestir diferente e ir maquiada — apenas com um gloss meio vermelho, porque fui aprender a me maquiar de verdade depois dos dezessete — para a escola para ter amigos; que eu nunca precisei ir às festas dos amiguinhos e ficar bêbada com Smirnoff Ice aos quinze anos e engravidar aos dezesseis para ter um futuro; e que eu nunca precisei realmente ser aceita pelas pessoas, escrever “agente vamos” ou “uma nova novidade”, ou ser líder de classe, para encontrar minha realização pessoal na escrita, e posteriormente publicar um livro, realizando um sonho que sempre existiu. Eu nunca precisei tentar mudar quem eu era para atingir os meus objetivos e conquistar meus sonhos.

Eu fiz amigos na escola. Não muitos, mas, ainda assim, cada um deles vale por mil. São pessoas que vou carregar para sempre no coração e na vida, pelo tempo que me for possível. Eles me aceitaram do jeito que eu era: meio louca, cheia das lentes de contato coloridas, que usava roupas maiores do que o normal, vivia escrevendo ou lendo durante as aulas, que fazia teatro e adorava atuar e contar histórias, e ainda pintava e alisava o cabelo.

Eu menos tempo do que eu imaginei que levaria, eu consegui entrar em uma boa universidade, no curso que queria; consegui um estágio em uma editora e trabalhos freelance em outras; consegui publicar um livro, por mais inexperiente que fosse; consegui conquistar minha independência; e conhecer pessoas incríveis que hoje fazem parte da minha vida e posso dizer que realmente são meus amigos, pois me aceitam como eu sou: com cabelo cacheado, morena ou ruiva e às vezes as duas, nariz grande, mania louca por leitura e escrita, um amor impossível com a tequila, com a cara limpa ou ralada, com roupas curtas ou grandes. Levei anos para encontrar essas pessoas e para ser aceita, mas quando as encontrei, eu soube que seria para sempre e verdadeiro.

O que eu aprendi é que eu não preciso mudar por ninguém. Que não preciso ser diferente de quem sou, tentando me adaptar ao grupo na qual convivo, tentando seguir um padrão de beleza, de atitude, de conversa e de personalidade na qual todos estão inseridos. Eu só preciso ser eu. E também aprendi que a vida não é apenas o ensino médio; que sim, que todas as nossas experiências dele vão nos acompanhar pelo resto da vida, mas a vida não se limita apenas a essa fase. Temos a faculdade. Temos a independência. Temos um trabalho. Temos uma vida. Uma vida em que, mais cedo ou mais tarde, será conduzida apenas por nós. Uma vida que definirá quem nós realmente somos, para onde devemos seguir e que tempo nenhum volta e que todas as responsabilidades estão nas nossas costas, onde qualquer erro é inteiramente nosso e que não temos mais oportunidades de voltar atrás, pedir desculpas e recomeçar.

Essa minha vida já começou. E posso dizer que estou mais feliz e mais realizada do que nunca em não esconder mais quem e como eu realmente sou, sem ter que ficar maquiando minha aparência, minhas atitudes e meus gostos para ser aceita. A única pessoa que tem que me aceitar de verdade sou eu mesma. E eu tendo isso, já me é o suficiente.
Algumas pessoas podem achar que isso é choro de típica loser de escola. Mas, na verdade, eu me sinto vitoriosa em passar por isso tudo e conquistar o que eu conquistei e estar onde estou.

Obrigada, vida, por me ensinar tudo o que sei hoje e por, consequentemente, me tornar quem eu sou. Por me ensinar a não ter vergonha da minha aparência ou das minhas aspirações ou do que eu gosto ou não gosto, do que admiro ou não admiro. E obrigada, principalmente, aos meus amigos verdadeiros que me aceitaram do jeito que eu sou e abriram um espaço no coração deles para me acolher e que tornaram meus anos escolares um pouco mais suportáveis do que realmente eram. Obrigada.


Escreve que passa é uma nova tag com a finalidade de trazer textos de cunho pessoal, muitas vezes como um desabafo da própria autora sobre determinado assunto. Será postado às sextas, sempre que ela tiver algo para falar.

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