Escrever no ponto de vista do sexo oposto: você pode estar fazendo isso errado

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Eis um fato: não há nada mais fácil do que escrever no ponto de vista de alguém do mesmo sexo que você. Afinal, você sabe pelo o que você passa; quais são os seus tipos de pensamentos; o seu dia a dia; dentre várias outras coisas. Você se conhece e conhece as pessoas do mesmo sexo que você. Conhece o cotidiano de pessoas assim. Logo, escrever um livro em primeira pessoa e no ponto de vista do personagem que o mesmo sexo que você é facílimo. Pelo menos, nunca vi ninguém reclamar até agora por causa disso.

Porém, o que eu mais vejo são autores e — principalmente — autoras pecando quando vão escrever em primeira pessoa e no ponto de vista de um personagem do sexo oposto. Autoras usando linguajar de homens em seus livros para tentar passar um realismo maior. Homens usando pensamentos extremamente femininos para tentar entrar no mundo da mulher. O esforço é evidente na maioria dos casos, mas, da mesma forma, a qualidade dessa tentativa é extremamente baixa.

Sobre o POV masculino:

Eu li um livro esses tempos que a autora fazia vários capítulos no ponto de vista do homem e, sinceramente, estava um cocozinho. Ela usava gírias e uma narrativa muito forçada que até me causava uma úlcera. O homem só falava de peito, bunda e “caraca, maluco”. Só. E em outro livro, acontecia o reverso disso: o homem só falava o quanto ele amava aquela menina e contava para todo mundo o como ele a amava e como ele a achava linda. Ok. Ao menos que essas duas autoras convivam com homens assim, eu acredito que a concepção delas a respeito do pensamento masculino geral estão bem erradas.

Fato 1: homens — heterossexuais — amam um par de peitos e uma bunda bonita. Homens sempre vão falar de mulher em algum momento de suas vidas. Alguns até vão falar de futebol, política, trabalho, o que for. Mas, em algum momento, o assunto “mulher” vai entrar na conversa de algum jeito.

Não é só porque a maioria dos homens pensam com a cabeça de baixo, que nunca tiram os olhos de uma bela bunda e sonham em apertar peitos por vinte e cinco horas por dia que esse deva ser o foco da narrativa de um personagem, meninas. Pelo amor de Deus. Coloquem uma personalidade forte e marcante em seus personagens e, principalmente, em seus pensamentos! Homem também adora jogo. Alguns até gostam muito de trabalhar e tomar aquela gelada, e outros gostam de discutir sobre política, se não discutir sobre o novo lançamento da Square ou sobre bandas preferidas. Coloquem outro assunto, alterem o tipo de pensamento, ou até mesmo pesquisem com seus amigos, perguntem o que eles fariam em tal situação que você precisa narrar. De nada adianta fazer um personagem bonito, julgado inteligente, calculista e fodelão das galáxias se ele só pensa em peito e bunda e fica falando “caraca maluco” o tempo todo.

Fato 2: homens podem se apaixonar e serem extremamente românticos com suas mulheres. Eu vejo isso todos os dias no meu feed do facebook: um homem postando a foto dele com a namorada e colocando um refrão de uma música sertaneja que fala sobre o amor platônico dele pela moça na balada, ou sobre a namorada que o deixou por ele só pensar em festa ou coisa do tipo. Ou uma música do Luan Santana. Homens sabem ser romântico e têm coração também.

Mas nem por isso eles precisam ficar relembrando o leitor o tempo todo o quanto ele ama aquela mulher, o quanto ele a acha linda, e ainda mais: sai espalhando para todos os personagens na história o quanto ele a ama, o quanto a deseja e etc. Sinceramente? Conheço muitas mulheres que jogariam um cara desses da janela se pudessem e ainda alegariam TPM. Homens podem amar SIM uma mulher, isso é óbvio, e você pode mencionar isso no seu livro. O seu personagem pode ser um romântico. Mas saiba equilibrar isso. Dê a ele outras coisas para falar ou fazer, ou até mesmo relembrar. Não fique focando o POV dele inteiro apenas na mulher que ele ama, caso contrário, muito provavelmente o seu leitor vai vomitar em cima do seu livro.

Eu não escrevo em POVs masculinos simplesmente pela falta de conforto. Não sou grande conhecera do sexo oposto, mas sou amiga de vários homens para ser como eles agem em certas situações. Eu simplesmente não escrevo na visão deles porque não gosto. Mas uma coisa que algumas autoras precisam aprender é saber equilibrar e construir um bom personagem masculino que não fique parecendo forçado demais. De nada adianta criar um personagem homem foda, frio, calculista, se ele só sabe falar de bunda e peito ou do quanto ele ama aquela mulher. Aquele personagem inabalável que você criou vai se desfazer completamente nas páginas se você fizer isso. Saiba equilibrar. Escrevas as cenas, mande para seus amigos, questione-os, veja se eles agiriam dessa forma, ou como agiriam, ou como falariam em certas situações. Mas nunca pergunte a apenas um, pergunte a vários. Saiba construir um personagem masculino mais forte e equilibrado que não fique forçado e até mesmo irreal.

Sugestões de livros com POVs masculinos: “O lado bom da vida”, de Matthew Quick; “Percy Jackson e os Olimpianos”, de Rick Riordan; “O Reverso da Medalha”, de Sidney Sheldon; “O Código Da Vinci”, de Dan Brown; “Anjos e Demônios”, de Dan Brown; “Liga, Desliga”, de Colleen McCullough; “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini; “Querido John”, de Nicholas Sparks; “Entrevista com o Vampiro”, de Anne Rice; “Confie em Mim”, de Harlan Coben; e “Marley & Eu”, de John Grogan.

Sobre o POV feminino:

Fato 1: nós, mulheres, não pensamos o tempo todo em bolsas, roupas e sapatos ou choramos quando quebramos uma unha. Nós também sabemos discutir sobre política, futebol, filmes, seriados e até mesmo podemos jogar videogame melhor do que vocês. A maioria das mulheres não são tão fúteis assim.

Autores, ao menos que a personagem se encaixe no estereótipo de mulher julgada fútil, que só pensa na própria aparência, no que vai vestir, o que vai fazer com o cabelo, não faça isso com as outras personagens em uma tentativa de torná-las mais femininas. Sim, nós gostamos de sapatos. Sim, nós gostamos de bolsas. Sim, nós gostamos de uma roupa bonita. Mas isso não é tudo, isso não nos define completamente. Nossas vidas não são focadas apenas nisso. Também temos sonhos, objetivos, princípios, e uma vida que não se resume a compras ou a um homem. Nada te impede de fazer uma personagem que adore se vestir bem. Mas há uma diferença entre uma personagem com bom gosto de uma personagem que só pensa na própria aparência. Saiba equilibrar uma coisa com a outra.

Fato 2: nós, mulheres, em nossa maioria, não dedicamos nossa vida a encontrar o homem perfeito. Algumas de nós nem pretende casar ou ter filhos e sonham mais com uma vida profissional bem sucedida do que com um romance estilo Nicholas Sparks e sessão da tarde. Às vezes ficamos encalhadas porque queremos. E, sentimental e emocionalmente, podemos ser ainda mais fortes do que os homens.

Autores, aprendam: há coisas que nós aguentamos sorrindo que vocês não suportariam nem gritando. Mulheres às vezes são mais fortes do que vocês imaginam. Algumas podem ser mais emocionalmente frágeis do que outras, mas quando precisamos encarar uma coisa, nós encaramos com tudo, principalmente se a sua personagem tiver um histórico de traumas ou fortes emoções e acontecimentos. Por favor, não seja mais um daqueles que cria uma personagem dita foda, imbatível, inabalável e que coloca todos os machos da história no chinelo se, no primeiro obstáculo para o seu objetivo, ela senta e chora em um canto. Muitas mulheres também não pensam em como o homem tal é bonito, ou o quanto ela quer casar e ter filhos. Para algumas personagens fortes — como vocês autores estão acostumados a criar — o casamento e construir uma família não é o foco ou objetivo da personagem. Há um abismo gigante entre a mulher amar um homem e a mulher que busca o amor de um homem para construir uma família, como se a vida dela dependesse disso.

Chega a ser ofensivo como alguns autores retratam algumas personagens femininas como mulheres fracas, sem desejos além de encontrar um namorado, um marido e ter uma cria, como se ela só estivesse lá para isso. Criem personagens com personalidades, narrem com mais personalidade, não foquem seus pensamentos só nessas coisas!

Sugestão de livros com POVs femininos: “Samantha Sweet, executiva do lar”, de Sophie Kinsella; “O Reverso da Medalha”, de Sidney Sheldon; “Belle”, de Lesley Pearse; “Sangue e Chocolate”, de Annette Curtis Klause; “Jogos Vorazes”, de Suzanne Collins; “P.S.: Eu te amo”, de Cecelia Ahern; “O Garoto da Casa Ao Lado”, de Meg Cabot; “Rainha da Fofoca”, de Meg Cabot; “Academia de Vampiros”, de Richelle Mead.

Eis um apelo, não de uma escritora, mas de uma leitora: não apenas construam bons personagens, mas no momento em que precisar entrar na mente deles para narrar, faça do jeito certo! Não torne a leitura uma coisa forçada para o leitor. Entre de verdade na cabeça do personagem. Faça pesquisas com seus amigos, tenha leitores betas do sexo do personagem que está narrando, sempre questione. Não tem nada pior do que pegar um livro com uma narrativa de um personagem forçada e fraca.

E, ademais, se você tiver alguma sugestão de um livro com POV masculino ou feminino bom, compartilhe aí nos comentários! Novas fontes sempre ajudam.

E aí, gostou? Não deixe de comentar!

Boa escrita para você!

Bio Gabs

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8 comentários sobre “Escrever no ponto de vista do sexo oposto: você pode estar fazendo isso errado

  1. Um dos meus protagonistas com POV é um homem e sempre tive esse receio, ainda mais pelo fato de que a história se passa em um mundo criado por mim com uma cultura um tanto diferente da nossa. Mas a maioria das personagens de grande importância de meus livros são mulheres.
    Mas ler livros com protagonistas masculinos realmente ajuda, e é bem fácil perceber que os personagens não pensam somente em peito e bunda. Outra coisa que também faço é escutar disfarçadamente conversas de outras pessoas, tanto homens como mulheres, para saber como cada um age.
    Para acrescentar mais livros à sua lista, recomendaria a trilogia “A Crônica do Matador de Rei”, de Patrick Rothfuss, a série “Nobres Vigaristas”, de Scott Lynch, e “As Crônicas de Gelo e Fogo”, claro. Martin tem muitos personagens e isso é muito interessante, pois podemos observar diferentes personalidades. Também recomendo “Harry Potter”, porque mesmo sendo mulher J. K. Rowling deixou tudo muito convincente, e é claro que ela tem personagens femininas muito boas, como Hermione e Luna Lovegood.
    Alguns livros com boas protagonistas femininas são “Trono de Vidro”, de Sarah J Maas, “Os Instrumentos Mortais”, de Cassandra Clare, “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Zusak, e “Mistborn”, de Brandon Sanderson (creio que esses dois tenham feito bons trabalhos, também, ainda que sejam homens). Na realidade não consegui pensar em muitos livros com protagonistas femininas que tenham me agradado, parecem que são a minoria.

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  2. Sou gay, então para mim sempre foi mais fácil falar do universo feminino. A minha personagem usa roupas de grife, compra carros caros mas também adora fazer coisas simples como ler um livro numa biblioteca ou simplesmente ficar deitada num gramado. Enfim, não sei se minha personagem mostra tão bem as mulheres, até porque tento dar mais importância aos seus sentimentos… Mas você agora me deixou em dúvida ^^
    Mas acho que minha personagem necessita muito do homem que ela ama. Sabe aquele amor quase doentio? Então, é esse que ela têm por ele. Talvez seja por causa da perda do pai dela há cinco anos ou a falta de amor da mãe, fora ela ter um noivo ambicioso que só quer saber do dinheiro dela.
    PS: Amei a matéria. Como sempre, você é demais Pandora.

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    • Oi, B! Primeiramente, gostaria de dizer que a-m-e-i seu comentário e que quero conhecer sua história! Hahahaha.
      Eu tenho imensa dificuldade em entrar no universo masculino e narrá-lo na visão de um personagem. Tenho um livro em que minha maior dificuldade (e meu maior desafio, também) é fazer isso. Espero que eu consiga, hahaha.
      Novamente, obrigada pelo comentário e pelo carinho! <3

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  3. Achei a crítica muito boa, mas tenho uma observação a fazer. Você nos dá algumas sugestões de livros que possuem narrativa masculina e feminina. Mas, TODOS, eles são feitos pelos seus respectivos sexos. Não seria mais conveniente ao post indicar livros com narrativas opostas ao genero do escritor? De forma, a mostrar que é possível sim, e como foi feito?
    Abraços

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    • Oi Raquel!
      Nem todos os livros foram narrados pelos seus respectivos sexos, apesar da maioria realmente ter sido. “Liga, Desliga” é de uma autora e podemos ter o ponto de vista de diversos personagens masculinos (embora em terceira pessoa, mas já é o suficiente). “O Reverso da Medalha” também é um autor, e podemos ver vários povs femininos ao decorrer do livro. Outras sugestões também são “A Culpa é das Estrelas”, onde também é narrado por um autor com a protagonista feminina. “Harry Potter” também tem um foco bastante na visão do Harry (embora, também, em terceira pessoa), e é narrado por uma mulher; “Os 13 Porquês” mostra também uma visão bem ampla da personagem Hannah Baker, e narrado por um homem. Não inclui realmente esses livros na lista por serem para um público muito mais jovem, tentei me ater ao público jovem-adulto, mais eis umas dicas. Se conhecer mais algum também, não deixe de compartilhar!
      Obrigada pelo comentário!

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  4. Adorei a postagem!
    Estou trabalhando uma fanfic em terceira pessoa, com mudança de foco entre quatro personagens (2 homens e 2 mulheres).
    Sou mulher e sempre considerei minha forma de pensar mais masculina do que feminina.
    Mas confesso que mesmo assim tenho uma certa insegurança na hora de escrever.
    Sempre gostei de ler, e meus contos e redações eram elogiados, mas construir uma história com vários personagens, começo, meio e fim… é mais difícil do que imaginei!
    Tenho medo de não conseguir passar o que realmente estou sentindo. Medo de os protagonistas ficarem muito parecidos, ou do garoto ser sensível demais e a menina um tanto fútil.
    Por incrível que pareça, sinto que minha maior dificuldade está no ponto de vista feminino, pois nunca tive atração por garotos e coisas que a maioria das mulheres se interessam.
    Também não tenho muita paciência com a descrição de cenários e etc.
    Acredito que mesmo a narrativa não sendo em primeira pessoa, ela ainda mostra muito do personagem e qualquer falha com certeza vai aparecer.
    Tenho o costume de revisar (MUITO) tudo o que escrevo, e cada vez que o faço, sinto aquela mistura da alegria com a auto-crítica e a sensação de que poderia ter feito melhor.
    Livros que me ajudaram a conhecer um pouco ambas as forma de pensar são: O Leitor (Bernhard Schlink) masc., Gregor (Suzanne Collins) masc., Divergente (Veronica Roth) fem., Gossip Girl (Cecily Von Ziegesar) masc. e fem., Percy Jackson e todas as séries do Rick Riordan, Harry Potter (J.K. Rowling) masc., Jogos Vorazes (Suzanne Collins) fem., Maze Runner (James Dashner) masc. e Diário de Um Banana (Jeff Kinney) pra crianças.

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