Como ambientar minha história em um lugar existente (e que não conheço!)

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Eu, infelizmente, sou uma autora que não consegue escrever sobre o lugar onde vivo. Atualmente, moro em Florianópolis, a Ilha da Magia. Existe uma abertura enorme para escrever qualquer história aqui; Floripa tem vários pontos turísticos, praias maravilhosas, muita gente diferente justamente por causa dos universitários e intercambistas, festas e eventos incríveis e tudo mais. Porém, eu simplesmente não consigo escrever minhas histórias ambientadas, tampouco aqui, quanto em qualquer outro canto do Brasil.

Existe uma trava. Eu não sei como me livrar dela, e eu juro que já tentei. Tudo o que eu escrevo com cenário no Brasil parece que não fica bom e que precisa ser muito aperfeiçoado, mas para isso, preciso trocar o cenário. Parece que nunca fica bom. Com isso, eu acabo optando por escrever histórias que se passam em outros países.

A questão é que nunca viajei para fora do Brasil. Nem para buscar uma muamba no Paraguai. Nunquinha. O máximo de contato que tive do exterior foi encomendando minhas coisas da China e falando com estrangeiros tarados (e alguns tão fofos que tocam piano para você) no Omegle. Então, como fazer uma história que tenha um cenário estrangeiro e que você nunca visitou?

Bom, é mais simples do que você imagina.

Pesquise muito. A pesquisa é essencial. Se o cenário do seu livro é uma cidade dos Estados Unidos, como é muito comum encontrarmos por aí, pesquise sobre aquela região. Assista muitos filmes, leia muitos livros e principalmente, revire o Google do avesso. Procure por costumes, histórias, turismo, cultura. Se o seu livro tiver, além do ambiente norte-americano, o ambiente escolar, assista seriados. Há muitos com o ambiente escolar. Você poderá perceber que há uma diferença gritante entre a educação brasileira e a americana, tanto em termos quanto em organização de aulas, salas, comportamento dos alunos, baile de formatura, etc. Pesquise também sobre as leis, penalidades sobre crimes, política, economia, empregos e outros.

Procure muitas referências e apegue-se aos costumes. Ler muito e ver muitos filmes é essencial para isso. Continuando na base do cenário norte-americano, você pode ver em todos que o café preferido dos americanos é o Starbucks. Procure saber mais sobre a loja, sobre o cardápio; até se você morar em uma metrópole como São Paulo, que tem filiais da cafeteria, procure experimentar um. Procure saber o nome de cervejas, snacks e fast foods para dar um realismo maior à sua história. Também procure sobre os costumes e aparências da região. Por exemplo, os americanos recebem seus salários em base da hora de trabalho, alguns prezam muito pelos seus jardins e é normal pagarem garotas adolescentes para ficarem de babá para os seus filhos e darem um trocado. A cultura lá também é mais acessível, então eles terão um contato maior com cinemas, teatros e shows. Os americanos também fazem um uso do metrô e em alguns casos, de trem também. E nada de miojo! O que pagamos no miojo aqui, eles pagam em um prato completo e uma comida congelada no Walmart (e que, boatos, é uma delícia). E a pizza mais famosa é a de calabresa. Fique atento a todas as referências e costumes da região do país na qual você vai trabalhar em cima e montar a sua história.

Google Maps é seu melhor amigo. Há um tempo que o Maps já dispõe de muitas áreas do mundo com Street View, o que dá uma abertura maior para você trabalhar em cima. Você pode usá-lo para ter noção de ruas, distância, localização, ter uma ideia de como é o espaço no qual você está trabalhando. Se você está trabalhando em uma cidade litorânea como San Diego, você consegue ver como é o clima e o espaço da cidade, assim como a estrutura dela. E é muito improvável que ela vá ter uma aparência supostamente britânica de céu sempre nublado e chuvoso e cinzenta.

Acima de tudo, geografia é muito importante. Não dê uma de aquela celebridade que falou esse seguinte absurdo: amo ir para Miami, sempre visito a Torre Eiffel. Ou coisa parecida. Estude MUITO sobre a sua região e sobre os pontos turísticos e, principalmente, sobre o clima. Em diversos países o clima não é o mesmo do Brasil, podendo ser o inverso ou uma ou duas estações à frente. Então não diga que nos Estados Unidos o Natal é verão e quente como o inferno, porque não é! Nos Estados Unidos, o clima do Natal é inverno. E, assim como cidades como Rio de Janeiro, que nunca viram um inverno rigoroso, ou Curitiba, que dificilmente tem um verão daqueles de quase andar pelado na rua, algumas cidades serão assim também. Na Califórnia, por exemplo, ouvi boatos que é difícil ter um inverno daqueles e que no máximo, as pessoas usam um casaquinho de lã. Então fique atento a esses detalhes.

Cuidado com as gírias e piadinhas de derrubar o forninho. Sabe o “eita Giovana”, “o forninho caiu”, “Rosana tô tremendo”, “Juliana está d e s m a i a d a”, “hoje é quarta, dia de fumar um baseado”, “senta lá, Claudia” e outras coisas assim? Então, no exterior, isso não é famoso e se você soltar uma dessa perto das pessoas, elas provavelmente vão achar que você é retardado (vejam que a Kaya Scodelario, que tem descendência brasileira, e em uma entrevista brasileira sobre Maze Runner, não sabia o que era “Eita Giovana”, senão ela provavelmente teria morrido de rir, imagino). Ao menos que um personagem seja um brasileiro perdido no exterior, aí seria sensato usar, ainda para torná-lo alvo de piadas momentaneamente ou coisa parecida (porque BR que é BR vai mostrar o vídeo da Giovana e o Forninho pra todo gringo possível e vai ensinar a eles que “desce sobe empina e rebola toda delícia toda gostosa” é para pedir um cheeseburguer com batata e bebida grande e top sundae de chocolate no McDonald’s em português). Procure descobrir quais são as gírias e piadas do momento, se tiver interesse em adicioná-las ao seu livro, para que a história fique mais condizente com a realidade do país em que se passa.

Lendas urbanas e datas comemorativas também são importantes. Pesquise sobre aquelas lendas que deixavam você tão assustado quando os dias que tinham Linha Direta. Por exemplo, Bloody Mary é a “Maria Sangrenta” dos Estados Unidos e é muito mais famosa do que para nós, assim como a Loira do Banheiro. Datas comemorativas também são muito fortes em alguns países; eles comemoram Ação de Graças com a mesma preparação de uma festa de natal; na páscoa, fazem caça aos ovos; no Halloween, se vestem de fantasias e pedem doces ou travessuras nas casas da vizinhança; e em alguns países a mudança de estação é tão nítida que chegam a fazer festivais, comemorar solstício de alguma estação em especial, etc. Pesquise sobre todas as datas e lendas urbanas, veja a importância delas na região sobre a qual você vai escrever e, se possível ou necessário, aplique-as à sua história.

Coerência com os nomes! Se o seu personagem é naturalmente norte-americano e nunca teve contato nenhum com o Brasil, por que raios ele teria o nome de Josislvado Cruz Ferreira da Silva? Ou se o nome dele é James, e o nome dos amigos é Rogério Zé Pequeno, Paulão e Birosca e nenhum deles tem contato nenhum com o Brasil? Mantenha uma coerência entre os nomes. Se todos são do mesmo país, dê-lhes nomes naturais daquele país. Se um deles está naquele país, mas é imigrante, dê-lhe um nome do seu país de origem. Não faz sentido você dar um nome totalmente brasileiro para uma história com cenário e personagens inteiramente italianos e que você até consegue imaginá-los fazendo coxinha quando falam. Procure em sites de nomes de bebê; há centenas deles por aí. Ou, se quiser, apele para a minha planilha de nomes para ter uma ideia.

Por hoje, essas são as dicas!

E aí, gostou? Não deixe de compartilhar e comentar!

Boa escrita para você!

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5 comentários sobre “Como ambientar minha história em um lugar existente (e que não conheço!)

  1. Eu já tenho bloqueio para escrever qualquer história que se passe em qualquer lugar da Terra. Meu projeto principal se passa parte em São Paulo, parte em um mundo que eu mesma criei, mas no caso de São Paulo, mesmo conhecendo bem algumas partes e tendo acesso a várias outras facilmente, acabo não especificando o local exato em que se passam para não ter de me preocupar com tempo de deslocamento, nomes de ruas, estabelecimentos, etc. Dá um pouco mais de liberdade à história, ainda que eu às vezes acredite que um pouco mais de detalhes tornaria a história mais crível.
    Ainda sobre ambientar histórias em locais fora do seu país, acho interessante, na construção dos personagens, manter um equilíbrio entre a cultura deles, para que seu leitor acredite que seu personagem realmente é americano (para usar o mesmo exemplo que o seu), mas ainda assim dar traços únicos ao personagem, para que este não pareça estereotipado.

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  2. Eu costumava ter esse mesmo problema. Não conseguia sequer imaginar uma historinha aqui no Brasil, e achei que nunca fosse conseguir. Também moro em Floripa e, com a chegada de novembro e o começo do NaNoWriMo, resolvi me arriscar e desenvolver uma história que se passasse aqui mesmo. Hoje já to com quase 100 páginas escritas. Acho que a ideia de escrever uma história no Brasil precisa ser trabalhada, sabe? Dentro da nossa cabeça, até que a gente se acostume e consiga pensar em uma trama boa o suficiente. Me preocupava demais com o sotaque, mas resolvi me desligar pra escrever e ver no que ia dar e deu/ta dando super certo. Gostei muito do seu texto! Costumo prestar atenção em todos esses detalhes pra não deixar nada incoerente. Ótimo ver que existem pessoas que fazem o mesmo que eu :D

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  3. Meu Deus! Obrigadaaaa pelas dicas! Super me identifiquei com vc. Eu escrevo dramas e não consigo, de jeito nenhum, escrever usando esse cenário brasileiro tão cheio de sol e vida haha! Parece que estou falando mentira, sabe?

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  4. Gabriela muito obrigado mesmo pelas dicas, eu estava/estou com muitos problemas para desenvolver minha história, como é a primeira não estou muito familiarizada. Vou guardar suas informações como se fosse ouro.

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  5. Gabriella muito obrigado mesmo pelas dicas, eu estava/estou com muitos problemas para desenvolver minha história, como é a primeira não estou muito familiarizada. Vou guardar suas informações como se fosse ouro.

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