Quadro do Autor Nacional: “Lembranças de uma casa velha”, conto de Anderson Câmara

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Lembranças de uma casa velha

Era uma casa. Paredes, janelas, cortinas verdes e lâmpadas incandescentes que mais aqueciam que iluminavam os sofás e poltronas forrados de couro. Rodapés feitos de cerâmica escura com desenhos sem sentido, encimados de manchas de infiltração a um canto da sala de estar. O longo corredor, um pouco enviesado em relação ao eixo do terreno, ligava a sala à cozinha, e dava acesso a dois quartos e um banheiro. Um vaso sanitário de porcelana branca e assento de plástico, um chuveiro elétrico já queimado há muito tempo.

O piso de cerâmica já sofrera muitas solas de sapatos e chinelos, pés descalços, café derramado, urina de um cachorro já morto há anos, e até costas estateladas no chão. O quarto pequeno, escuro e sem janelas, palco de cenas de compaixão e de raiva. Suas paredes guardaram segredos nunca contados, uns suspeitados mas não provados, e outros descobertos sem intenção. As cortinas da cozinha lembravam-se dos gritos da mulher que ali preparava o café e o reluzir da faca contra ela brandida. O teto do corredor nunca esquecera os grandes olhos negros da pequena menina traumatizada ao ver as terríveis cenas de agressão e covardia contra aquela que sempre lhe dizia para não chorar.

Entretanto, aquele que sempre amparava a menina em seu pranto, era o couro do velho sofá, que por muito tempo colhia as lágrimas da criança. A cortina da sala, por vezes, dava espaço para o vento, que vinha consolá-la com sua brisa suave e seu assovio tenro. E todos ali, eram os únicos que escutavam, quando a menina chamava pela mãe desacordada no chão. O olho inchado, o lábio cortado.

Por vezes o portão tentara bloquear a entrada daquele homem, mas apesar do alto nível de embriaguez, e por mais que ele lutasse, o homem sempre entrava. Fazia seus passos vacilantes atravessar a grama seca no quintal, vez ou outra pisando fezes do cachorro e espalhando-as pelo tapete da sala sem nem notar. Os quadros da sala mostravam-se aliviados quando o homem estava embriagado demais para qualquer coisa além de se jogar no colchão e acordar apenas no dia seguinte.

Antes, quando o gramado era verde, e a menina era menor, o cão corria ao seu redor enquanto os curtos e ainda inexperientes passos dela conduziam-na dos degraus da porta até a base de uma bananeira, que crescia junto com a menina, ali perto. Naquele tempo, o irmão mais velho corria na rua, um pedaço de madeira na mão, tentava atirar uma bola verde na garrafa do seu adversário na brincadeira. Anos depois, a casa envelheceu e cansou-se, mas as crianças cresciam jovens e saudáveis. O homem e a mulher acresciam suas discussões, e em vez de escondê-las, fizeram as crianças assistirem o terror.

Quando o garoto cresceu mais um pouco, passou pela porta, desceu os degraus e atravessou o portão, uma grande mochila nas costas. O portão esperou que ele voltasse, mas enferrujou suas dobradiças e não o viu chegar. Foi então que o homem passou a trazer um hálito alcoólico em suas vindas. A menina estudava e brincava sobre a mesa, mas a mesa passou apenas a sentir golpes e tropeções do homem enquanto este perseguia sua mulher.

As paredes externas descascaram sua tinta, e deram lugar a longas e tristes lágrimas de umidade, alguns tijolos do beiral jogaram-se na grama, e a menina virou moça. As paredes já não eram mais capazes de suportar sua fúria e indignação, apesar de sua mãe defender o pai. Foi então o tempo em que os homens armados passaram por um portão assustado. A mando da filha, carregaram algemado um homem que estava claramente e sinceramente arrependido, mas já era tarde demais.

Sobre o autor

Anderson Câmara tem 23 anos, sendo escritor e poeta desde os 17 anos. Como poeta, é romântico; como contista, é adepto do fantástico cotidiano passeando pelo surreal; e como romancista, tem dificuldades em ser normal. Tem uma série de projetos e inspira-se em autores como Stephen King e Neil Gaiman. Você pode entrar em contato com o autor através do seu Facebook ou do seu Blog.

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