Quadro do Autor Nacional: “Até certo ponto”, crônica de Mirella Brizzi

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Até certo ponto

O dia começou como qualquer outro, todas as preocupações na cabeça e quase um temor pelo fim da semana. Coloquei a música no último volume, para esquecer do mundo. Meu ônibus chegou, entrei como qualquer outro. Resolvi ficar no fundo, coisa que nunca faço, pois, como qualquer outra coisa na minha vida, prefiro ficar na porta – insegurança. Foi quando eu o vi, sentado no canto, misterioso.

Parei perto, quase como se fosse, magneticamente, puxada. Cabelos castanhos escuros, bagunçados pro lado. Barba quase que rala emoldurando seu rosto rígido. Sobretudo preto, aumentando o ar de mistério de sua feição. Branco, quase pálido e com um olhar capaz de fazer você morrer de amor pelo menos trinta e nove vezes, em apenas uma hora. Aquele tipinho de vampiro de ficção romântica, que encanta qualquer menina de dezesseis anos, e mesmo que já não tenha mais tal idade, aquele olhar te fará voltar a ter.

Mas, o que mais me chamou a atenção foi que ele tinha um livro nas mãos. Homem misterioso algum deveria ser permitido ler livros em público. Não basta ter um olhar que te devora, ainda usa de um livro na mão. Golpe baixo pra imaginação de qualquer mulher. Cheguei mais perto, ele me olhou, provavelmente, por causa do meu sobretudo rosa. Nossos olhares se cruzaram, por meio segundo. E nesse meio segundo, me apaixonei perdidamente. Vagou um lugar atrás dele, tive que resolver rapidamente se iria ou não. E fui. Acabou sendo melhor, dali conseguiria observá-lo sem ter que desviar o olhar quando preciso.

Então, tinha a visão de seu cabelo, sua orelha e seu livro. E o mais importante, o jeito que o manuseava. Ele lia, e arrumava as sobrancelhas; esfregava os dedos antes de trocar de pagina, como se estivessem coçando de ansiedade para as próximas palavras; acariciava o livro após virar a pagina, e eu desejei ser aquele livro. Me dei conta de que apertava e acariciava meu celular também. Ele se movia como uma sinfonia. Me lembrei que ainda ouvia musica; “I can’t believe  how you looked at me with your James Dean glossy eyes…”.

Percebi o que ele me lembrava, mas essa lembrança nunca seguraria um livro, se não fosse com mais dois para jogar pro alto. Resolvi não colocar cargas passadas nessa nova paixão de olhos cativantes, quase demoníacos, hipnotizantes. Pensei na possibilidade de amanhã encontrá-lo de novo, mas mudei de pensamento. Prefiro paixões avassaladoras de duas horas no máximo, não sei lidar com paixões de tirar o fôlego.

Resolvi que queria ser notada, achei loucura no princípio, mas consegui me convencer rápido. Levantei, mesmo faltando muito para minha parada. Me pus na sua frente. Comecei a observar a rua que tanto amo, e depois de tanto lutar contra meu olhar, me permiti passá-lo sobre ele, que olhava com uma certa curiosidade pra mim. Pronto, amor correspondido. Me sentia completa. Ele fechou seu livro, levantou e desceu do ônibus. E foi quando nossa paixão acabou. Pensei pela última vez em seu livro quase terminado.

Existe algo mais delicioso do que um livro e seu último capítulo?! Posso afirmar que sim, existe o garoto do livro. “… eu adoro um amor inventado.”

Sobre a autora

Mãe, estilista, escritora para desabafos e sonhadora em tempo integral. Mirella Brizzi começou a escrever por conta do término de seu primeiro relacionamento e, desde então, tem sua vida contada o tempo todo, por ela mesma, em sua cabeça. Desde 2009, escreve o blog Mundo de Mika, onde diz ser seu “coração em palavras”. Acredita ser o amor a coisa mais importante dos quatro ventos. Viciada em Elvis Presley e vestidos, nasceu, claramente, na década errada.

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